sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Carnaval: utopia na pintura de José Claudio

Quem olha para a cultura brasileira certamente se atém ao colorido de seus habitantes, que mais parecem tintas de uma aquarela cujos pigmentos vieram de diversas partes do mundo. O quadro que se pintou por aqui ao longo das décadas mostrou que em matéria de diversidade, o povo brasileiro é praticamente uma pinacoteca. Por isso que o carnaval é tão intenso. Muitos hábitos distintos dispostos em um mesmo país precisam de alguns dias para explodir e se misturar, o que traz leveza e provoca um reforço de suas próprias identidades. 

Durante o carnaval, pobres e abastados, cultos e aprendizes, brancos, negros, mesclados e amarelos olham e interagem, como forma de estabelecer um momento de lucidez harmônica perante as divisões do cotidiano. Pode parecer insólito, mas o carnaval tem uma função muito importante na estrutura social. Entre esses quatro dias, o verbo rir é conjugado acompanhado do conectivo "com", em vez do "de". Pisões nos pés ou derramadinhas de cerveja sem querer são perdoados mais facilmente, piadas têm o timing perfeito pela predisposição das pessoas, paqueras são mais fáceis de serem executadas pelo bom humor, conversas são iniciadas com pouco ou nenhum esforço, e amizades podem surgir entre os confetes e serpentinas.

Tem também o belo. As fantasias, as instalações, a estética. O carnaval se relaciona com arte desde o seu nascimento. Apesar da nomenclatura da festa, o reinado de momo ultrapassa o sentido de "festa da carne" e amplia o seu significado para os olhos. Todas as personas incorporadas, a música, o vai-e-vem das ladeiras,    tudo contribui para imprimir um quadro utópico na memória e no coração de quem se aventura pelo hedonismo convidativo da celebração.


Sendo assim, nada mais natural que artistas sejam homenageados pelas cidades provedoras da folia. Em Recife, uma destas pessoas é o artista plástico José Cláudio, célebre por desenvolver um estilo próprio que reinventou a pintura de paisagem, segmento majoritário da arte praticada em Pernambuco. Por meio de suas pinturas, José Cláudio trouxe vida às obras antes estáticas. Nelas, conseguimos enxergar, por meio de seus traços fortes, toda uma movimentação do local retratado, com tipos e hábitos que permeiam o imaginário popular da cidade. Seus quadros conversam com quem os vê.


Por isso, que quem for visitar o Recife, vai encontrar fragmentos de suas pinturas decorando as ruas e pontes, brincantes sem rosto definido, porém com velocidade e ritmo, como a universalizar a alegria de todos aqueles dispostos a andar pelas ruas da cidade. Olhando os passistas, bailarinas e palhaços, o visitante é convidado a enxergar além das roupas, dos adereços e da música, para se dar conta que o carnaval é nada mais que a expressão concreta de todos os sentimentos.


Ao decorar suas ruas e pontes com a representação artística de sua riqueza cultural, o Recife mostra que, esteja onde estiver, o folião tem por obrigação despir-se de todos os preconceitos em nome da sanidade de sua própria alegria. Carnaval é composto de sensações, de leveza, otimismo - e por que não? - gentileza.


Um carnaval mágico para todos!

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