sábado, 19 de novembro de 2011

São Paulo Confessions: Quem é o seu lar?

Uma das coisas que mais me chamam a atenção na cidade de São Paulo é o seu poder agregador e concentrador. Como uma senhora robusta e viajada, que já provou, viu, escutou, fez e leu de tudo, e defende seus pontos de vista com embasamento, pompa e circunstância. Com altivez e irreverência.

Falo assim por que esta capital chama para si pessoas muito batalhadoras, que juntas são o que há de melhor que podemos encontrar nas metrópoles afora. Pessoas de dentro e de fora de seus limites, como Raquel Monteath, de nome gringo, mas brasileiríssima de Recife, que conheci no vôo para Sampa. Ah, quer saber como reconhecer um pernambucano indo pro Sudeste? Basta encontrar um bolo de rolo na bagagem de mão da figura em questão.

Assim como eu, Raquel estava indo à Sampa prestar concurso para a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), e levava consigo um comprido bolo de rolo para a irmã, que mora lá há algum tempo. Exatamente como eu, que levei esta iguaria pernambucana para um grande amigo que iria me hospedar por lá. Bolos de Rolo são como cartões de visita dos cidadãos de Pernambuco para o resto do país.

De olhar sereno, postura elegante e papo firme, Raquel é daquelas que é grande demais para o lugar que ocupa. Tem sonhos e metas que precisam dos radares de pessoas semelhantes a ela, que possam captar os sinais de seu talento, para contribuir e crescer junto. Conversamos sobre o mercado de trabalho, sobre quem poderíamos conhecer em comum na nossa terra, os causos e delícias das redações e o que realmente queremos pro futuro.

Rachel e eu, desembarcando em Guarulhos. Salve, Monteath!
Me senti menos sozinho ao me identificar nela. Engraçado como o nosso lar nos acompanha e nos mantém seguros em terras alheias. Enquanto seguimos adiante com nossas vidas dentro do nosso círculo, ao sair dele encontramos conforto naqueles que não conhecíamos e que provavelmente não teríamos nem contato, estabelecendo uma relação de segurança baseada na nossa identidade regional.

Me lembro de uma vez uma moça ter me abordado no metrô após me escutar falando ao telefone com minha mãe. Ela me pediu liença e perguntou se eu era de Pernambuco. Após a resposta positiva, me deu um abraço e perguntou como estavam Recife e Olinda, como quem pergunta por amigos comuns que não vemos há muito tempo. Antes de sair do trem, eu já tinha o seu telefone e um convite para um almoço. Pronto. Éramos os melhores amigos de infância, unidos por uma cola composta de banzo e orgulho de nossas raízes.

Este tipo de ritual é necessário e bem-vindo, principalmente quando precisamos de uma segurança extra para nos apresentar ao novo.

Portanto, ao estar fisicamente longe do seu canto, é preciso ter em mente que a vida pode ser muito mais flexível do que aprendemos. Lar nem sempre é onde estamos, mas com quem estamos. E é isso que nos mantém vivos e capazes de enfrentar desafios.

Ah, pra quem tiver curiosidade, Raquel é a colunista de cultura do portal LeiaJá.com.

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