domingo, 20 de novembro de 2011

São Paulo confessions: Comer, contemplar e conquistar

Morar no centro de São Paulo pode ser uma festa pra quem gosta de praticidade e não tem tempo a perder. Claro, o metro quadrado aqui é um dos mais caros do Brasil, e quem tem seu apê nestas redondezas não está disposto a vendê-lo, salvo em casos de extrema necessidade.

A cidade está passando por uma espécie de extreme makeover, graças aos investimentos para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O centro é um destes pontos estratégicos, pela disposição de hotéis, pousadas, albergues, lojas, restaurantes, bares, boates, supermercados... a lista é imensa. Quando estive por aqui há seis anos, a região da Praça da República, por exemplo, era considerada perigosa à noite, salvo algumas ruas de atividade intensa de bares e grande circulação de pessoas. Hoje, pelo menos neste e em outros recintos referenciais da metrópole, vi calçadas revitalizadas e praças com jardins mais cuidados, além de um trabalho focado na orientação ao povo sobre a arte de conservar o seu patrimônio.

Mas, deixando a infra-estrutura um pouquinho de lado, o mais gostoso do centro de São Paulo é a dinâmica humana. "Qual a graça em observar a pressa dos paulistanos?", você me perguntaria. E eu lhe respondo: Salvo as almas mais sensíveis que nasceram nesta selva de pedra, os que vêm de fora é quem mais percebem a beleza incrustada nos seus passos rápidos e olhares rentes. Como será que os nativos desta cidade a enxergariam com os nossos olhos? Seria ela diferente? 

Depois de um tempo, até mesmo eu absorvi o costume de andar rápido e calcular o tempo necessário para chegar de A até B, de acordo com o horário do metrô ou a hora do dia em que você toma o ônibus. Mas ainda assim, por mais que eu me condicionasse a entrar na linha, isso não mudaria o fato de eu ser de fora e olhar para isso tudo como quem devora um livro e se encanta com suas histórias. É possível se adaptar à pressa de São Paulo e ainda assim, contemplar a cidade e se inspirar.

Uma pedida imprescindível para sobreviver por aqui é encontrar o barzinho, padaria ou lanchonete que mais combine com você. Aqueles para os quais você sabe que pode contar na hora daquela sede infernal ou fome sorrateira, sem arriscar seu bolso, nem o intestino.

Pois, justamente na região da República, você encontrará inúmeras opções que servem ao exército de trabalhadores que ocupam andares e mais andares dos prédios das redondezas. O que me chamou a atenção foram seus direcionamentos estéticos. Enquanto somos cada vez mais rodeados pelas franquias alimentícias e suas padronizações antissépticas de shopping center, as lanchonetes do centro ainda guardam aquele clima que remete às feiras e mercearias, com seus cardápios e etiquetas de preços afixadas pelo estabelecimento em cores fortes, com a maioria dos produtos à mostra.

E acredite se quiser, a semelhança com os estabelecimentos mais antigos não param por aí. é possível encontrar atendentes e gerentes que chamam seus clientes pelo nome, quebrando o padrão de "ficha número 363, seu pedido está pronto", para "Seu Jorge, tá aqui seu X-Salada!"



Dona Célia Manfredini é uma cliente assídua destas lanchonetes. Aos 63 anos, gerente de uma loja de artigos importados para presentes, ela faz suas refeições no mesmo lugar há nove anos. "Levou algum tempo até eu encontrar um local que fizesse a comida do jeito que eu gosto. Mas depois que se encontra um que atenda nossas necessidades, começa uma outra jornada, que é conquistar o local, assim como eles tentam conquistar a gente", afirma.

Quando ela afirma que é importante conquistar o local, assim como o estabelecimento tenta conquistar o cliente, trata-se de uma relação vantajosa para ambos os lados. Dona Célia é despachada o suficiente para conseguir dar uma olhada na cozinha pra ver se está tudo em ordem, além de conversar com os cozinheiros e garçons, puxando orelhas sempre que necessário. Por conta disso, o seu restaurante favorito aderiu à vitrinização da cozinha, por meio de uma grande janela de vidro, onde os clientes podem ver a quantas anda o cuidado com a higiene e a preparação dos alimentos, conferindo credibilidade ao negócio.

Portanto, quando for à São Paulo, seja esperto. Comece um affair com o barzinho, o café, o quiosque ou a sua padaria preferida e tenha um feliz casamento gastronômico e econômico durante sua estada.

E bom apetite! E por favor, sem pressa nessa hora.

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