sábado, 15 de outubro de 2011

Crônicas de São Paulo

Desde a minha volta de Sampa que não encontro tempo para escrever com calma sobre a experiência que vivi por lá. Aliás, me encontro num estágio em que adoraria poder escrever enquanto vivo. Olhar para a janela ao meu lado é praticamente uma tortura, por que sei que lá fora os minutos e o vento estão correndo, enquanto eu estou sentado dando vazão à minha represa de reflexões acumuladas.

Reflexões são como flores e frutos. Precisamos aproveitá-las enquanto ainda estão frescas e belas. Se as guardarmos para mais tarde, pode ser que percamos a chance de apreciar seus sabores e aromas como se deve.

Durante minha breve estadia em São Paulo -quatro dias, apenas- escrevi linhas mentais que renderiam uma biblioteca inteira. Acho que este deve ser o mal de quem nasce com alma de artista. Não me considero um, mas utilizo esta denominação por causa do lugar comum que é atribuído a esta classe. Como se somente eles fossem sensíveis.

Enfim. Meu cérebro mais parecia uma gráfica de off-set, imprimindo páginas e mais páginas de vida. E no meio de tudo isso, eu me amargurava por não poder registrar tudo aquilo que me tocava. Acho que sofro da ânsia do registro. Tenho amor demais pela minha vida para deixá-la ir embora por entre meus dedos. Quero guardar tudo, por que sei que os momentos felizes e aqueles de crescimento são a única bagagem que levamos daqui. Podemos nos dar ao luxo de acumulá-los, por que sempre eles nos fazem maiores e mais amplos.

Da última vez que fui à São Paulo, eu era bem ingênuo e despreparado. Hoje eu diria que estou apenas mais esperto. Por que de resto, na verdade, acho que ninguém nunca atingirá um patamar do nível "não preciso aprender mais nada nesta vida". Ainda assim, minha primeira experiência na cidade contribuiu muito no meu crescimento pessoal. Não me arrependo de nenhum minuto vivido entre seus arranha-céus.

Tenho um caso curioso com esta cidade. Ela me deixa desconsertado, mas ao mesmo tempo identificado. Ela é a mais humana das cidades do Brasil, por que assim como nós, demonstramos pujança e grandeza aos olhos dos outros, mas possuímos problemas como qualquer um. Somos grandes e generosos, mas também somos feios e imperfeitos em determinados aspectos. Por isso que São Paulo é linda e me intriga. Apesar do seu concreto, do seu metal e do seu cinza, ela é muito orgânica.

Esta cidade me desperta o mesmo sentimento que experimentei ao voltar à universidade. Eu já passava dos 30 numa turma que estava na casa dos 18, 19, 20 anos. Por um segundo achei que não ia me enturmar, mas essa sensação se dissipou quando decidi que não iria deixar a diferença de idade impedir de me enxergar neles. Sem relações verticais. Apenas simplicidade, de igual para igual. Eu não era melhor nem pior do que ninguém naquela classe. Com São Paulo é a mesma coisa. Não a encaro como algo superior, nem inferior, mas como uma "pessoa", com virtudes, defeitos e concessões que deverei fazer para conquistar uma boa convivência. Não é assim com todos nesta vida?


Uma coisa que devemos aprender sobre o céu de São Paulo: ele se utiliza das mesmas divisórias que separam colegas de trabalho num escritório. Qual não foi a minha surpresa a entrar em seu território aéreo e me deparar com um sol lindo e céu azul clarinho, que ficam para trás assim que o avião adentra as primeiras nuvens rumo à aterrissagem? Logo a garoa e os tons mais neutros e sóbrios de sua personalidade se apresentam à minha janela, em uma saudação nada sutil. "Oi, esta sou eu."

Mas ainda assim, este cenário me desperta respeito, cuidado e DELICADEZA. Sim, uma delicadeza maiúscula que se faz necessária em meio a tantos símbolos que nos condicionam à uma racionalidade sem fim. O habitante desta cidade parece ter consciência disso. E apesar das más línguas, da pressa, da cara concentrada, ele sabe acolher. Sabe ajudar. São Paulo é um grande corpo que se sustenta e se alimenta da troca de movimento e informação entre seus órgãos. E sua beleza se mostra apenas para aqueles que sabem a diferença entre ver e enxergar.

Por isso, quando for à São Paulo, é aconselhável despir-se de qualquer conceito pré-estabelecido que por ventura você colecione, e se permita ser escrito como um papel em branco. Se você quiser se aventurar nesta cidade que recebe tanta gente, você precisa recebê-la primeiro.

Texto e fotos:
Juliano Mendes da Hora

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