quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Tem sereia na rede

Bendita seja a internet. Assim devem proferir muitos setores da sociedade, que puderam usufruir de um canal que atinge milhões de pessoas, rompendo barreiras de tempo e espaço, numa troca de informações como nunca se viu antes. Com o mundo da música, não seria diferente. Atualmente vivendo um caso de amor e ódio com a grande rede mundial de computadores e o advento da pirataria digital, muitos artistas tentam se adaptar à nova ordem mundial no consumo de sua arte.

Mas o que ninguém pode negar é que o meio digital é uma forte arma de divulgação, jogando fora o funil de grandes conglomerados da mídia que sempre deixou muita gente boa de fora. Agora, é o talento quem dá as cartas, além do feeling para estar atento às novas plataformas que permitam transportar a arte até o público.

Este é o caso de Patricia Talem, cantora de voz leve e sedutora que despertou para a música ainda na infância, mantendo o contato com diversos gêneros nas incursões que fazia ao repertório ouvido pelos seus pais, seus avós e até mesmo na escola. Aos 14 anos, decidiu que iria aprender piano e se matricular em aulas de canto.

Daí em diante, Patricia até que tentou conciliar seus outros interesses, como a Engenharia Civil, mas nunca deixou de ter a companhia das letras e melodias. Em 1999, não resistiu a mergulhar no universo das jam sessions dos bares e casas noturnas de São Paulo. E o resto é história. O caminho percorrido só a deixou ainda mais apaixonada pelas partituras e pela pesquisa e criação musical. Em 2006, sentiu que estava pronta para dar o próximo passo: gravar um disco.

Em 2006, juntou-se ao produtor Marco da Costa, para iniciar a pesquisa do que seria o seu primeiro álbum, lançado apenas em 2008. O longo tempo de preparação faz sentido: dona de um senso bastante apurado, Patricia sabia que o primeiro rebento musical é um cartão de visitas, e ela queria que esta apresentação causasse a melhor das impressões. Para tanto, cercou-se de compositores como Flávio Venturini, Patrícia Lobato, Jairzinho, Sandro Albert e Alexandre Blasifera, entre outros. Grandes mestres também estiveram presentes em regravações de sucessos consagrados, como “Ludo real”, de Chico Buarque e Vinicius Cantuária e “Só de você”, de Rita Lee e Roberto de Carvalho. E assim nasceu o disco "Patricia Talem", lançado nos Estados Unidos e indicado ao Press Award 2010 em duas categorias : "Melhor Álbum" e "Melhor Tour 2009".


Atualmente, Patrícia está colhendo os frutos do seu mais novo álbum, entitulado "Olhos", gravado no estúdio de ninguém mais, ninguém menos, que o lendário Tony Bennett. O disco, de nove faixas, tem a produção de Marco da Costa, e conduz o ouvinte em uma série de releituras e canções inéditas envoltas numa atmosfera jazzística, com o acompanhamento elegante de piano, cordas e uma leve percurssão para dar um toque brasileiro.

"Olhos" é composto de clássicos norte-americanos e brasileiros, entre eles "Moonglow", de Will Hudson, Irving Mills e Eddie DeLange, e "Nascente", de Flávio Venturini e Murilo Antunes, ícone da música mineira do Clube da Esquina, imortalizada na voz de Beto Guedes. A cantora norte-americana Jane Monheit (que já é conhecida nossa aqui na Cajumanga) faz uma participação nesta faixa, cantando a letra em inglês, em uma belíssima tradução a cargo do próprio Murilo Antunes e de Tonico Mercador. Falando em contribuições norte-americanas, temos "Shadow of Love", uma belíssima valsa-jazz que leva o ouvinte a um piano bar de onde não temos vontade de sair. A composição foi um presente de um fã, Matt Robbins, um estudante secundarista que contactou Talem pelo MySpace!

A música brasileira se faz presente no samba-canção "Olhos Negros", de Johnny Alf e Ronaldo Bastos, que aqui recebe uma roupagem mais calma e sofisticada com o piano emoldurando a voz de Patrícia. Já a bossa nova chega com "Folha de Papel", de Sérgio Ricardo, em uma versão de inegável frescor e leveza. Mas a cereja do bolo está na regravação de "For Your Ladies", do Simply Red, com cores bem brasileiras.

Aproveitando a carona do fã americano, a internet serviu de canal para uma gostosa conversa entre a Cajumanga e Patricia Talem, numa entrevista onde ela fala sobre o processo de criação, suas inspirações, sua relação com o mercado fonográfico e seus próximos planos.


Em seu último percurso pela música encontramos um casamento muito feliz de sua voz com o jazz, a bossa nova e a música mineira. Como você travou contato com estes gêneros?

Sou uma cantora absolutamente eclética. Sempre ouvi e cantei um pouco de tudo. O Jazz e a Bossa Nova fazem parte da cultura dos músicos e cantores, não há como não se apaixonar por ambos os movimentos ... guardo ainda um carinho especial pela música mineira, que acessa minhas mais profundas memórias. Estou agora em estúdio gravando um álbum mais pop, com outras várias referências que adquiri ao longo da carreira ... enfim, adoro esta diversidade ...

Sabemos que o jazz, a bossa nova e até mesmo alguns artistas de MPB não têm uma abertura nas rádios como outros gêneros musicais que se tornam mais populares. Na sua opinião, o que falta no Brasil para que se dê mais ouvidos a outras nuances do mundo da música?

O Brasil é um país imenso. Tenho uma visão otimista em relação à esta questão. Ouço muita coisa boa nas rádios... os festivais de Jazz aumentando no país a cada dia... o povo brasileiro gosta sim de tudo o que é bom, incluindo os mais diversos gêneros musicais. Não concordo em taxar o nosso povo de ignorante, há uma certa pretensão em relação à isso ... e há muita música boa fora dos gêneros Bossa Nova e Jazz, só o que temos de ritmos regionais já é o suficiente para uma Bíblia Musical, sem contar que a influência da música estrangeira traz ainda mais elementos para este colorido  no cenário musical brasileiro.

A sua breve biografia nos conta que você canta desde pequena. De que forma a música esteve presente na sua infância?

Simplesmente canto desde que falo, já nasci amando cantar... me soa tão natural como acordar todos os dias, mas ouvi muita música boa em casa, na casa da minha avó materna, na escola, em casa de amigos ...

Como foi a trajetória das aulas de canto e piano ao universo fértil e boêmio dos músicos da noite?

Comecei as aulas de canto com 14 anos. Pedi à minha mãe que me matriculasse em uma escola perto de casa. Desde a primeira aula, já soube que queria aquilo para minha vida de forma séria. Depois disso trabalhei muito em piano bares de hotéis, bailes etc. Foi divertida a experiência. Mas o melhor é poder escolher o próprio repertório, traçar uma carreira com o que mais gosto.

Por que você gravou seus discos fora do país?

Os dois primeiros foram gravados fora do país, e voltados mais ao mercado estrangeiro. Quis explorar os gêneros Jazz, Bossa, que adoro... estou hoje em estúdio em SP gravando um novo álbum, voltado para o mercado brasileiro.

O que você pôde sentir de diferente entre o que se faz lá fora e aqui, em termos de estrutura para o registro musical de sua obra?

Hoje temos tecnologia fantástica no Brasil. No entanto, se eu for gravar um álbum de Jazz ou R&B amanhã, vou aos EUA... beber na fonte, entende ? É uma questão de linguagem...

Como o mundo vê musicalmente o Brasil, e como esta resposta contribui ao seu trabalho?

O mundo vê a música brasileira como ela é de fato... rica, trabalhada, cheia de suingue... o público estrangeiro, em especial o americano, gosta muito do meu trabalho e me dá um retorno super positivo ...

Você faz parte de uma geração que não pôde usufruir do poder de fogo que as gravadoras possuiram nas décadas passadas. Na sua opinião, como é possível viver de música no Brasil, tendo a pirataria e outros fatores econômicos atingindo a indústria fonográfica?

Hoje o artista tem que fazer um trabalho global, antes feitos pelas grandes gravadoras... esta burocracia atrapalha um  pouco o artista, que deveria estar concentrado apenas na parte musical. Por outro lado, há sem dúvida uma maior autonomia e liberdade para o artista, e o número de pessoas que pode gravar um álbum é enorme, ou seja, temos acesso a muito mais conteúdo hoje no mundo todo.

Pode nos contar um exemplo de como a internet lhe ajudou a explorar outros mercados e conquistar novos fãs?

Hoje em dia eu divulgo meu trabalho 100 % na net ... o retorno dos fãs é muito positivo, mas, além disso, conheço e estudo música de pessoas que jamais conheceria se não fosse pela internet ...

Sobre o seu novo disco, como se deu a escolha do repertório e por que estes autores?

O Marco da Costa, produtor deste disco, me deu todo o apoio na escolha do repertório. Trabalhamos juntos a bastante tempo e ele conhece meu gosto musical e minhas possibilidades vocais. As músicas foram escolhidas a dedo, e cada uma tem sua história particular.

Como surgiu a parceria com a Jane Monheit?

Nós (eu e o Marco da Costa) a convidamos para gravar a faixa Nascente. O Flávio Venturini havia nos enviado uma versão em inglês da mesma, chamada Sunrise. Acompanho o trabalho da Jane há algum tempo, e ela já conhecia o meu primeiro álbum, lançado nos EUA. Gravamos um videoclipe desta música em SP, que deve sair esta semana ...

O que você está escutando agora? Algum artista que a gente não conheça?

Estou escutando no carro o disco da banda África Lá em Casa, do meu amigo Guilherme Chiappetta.

Você é do tipo que dá um tempo depois que conclui um trabalho, ou já tem alguma idéia de qual direção vai tomar para o próximo disco?

Estou gravando um álbum que tem uma ligação com os dois primeiros, mas é uma linguagem mais pop, e todo gravado em português, voltado ao mercado brasileiro.

Confira uma entrevista em vídeo e o Making Of do clipe de "Nascente", com Patricia Talem e Jane Monheit: 

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