segunda-feira, 6 de junho de 2011

Paixões, especialistas e amadores

Escrever é algo natural de todos nós. Mas como tudo na vida, precisa de prática. E de amor. Olhando por este aspecto, encontramos duas categorias de pessoas no mundo: Há aquelas que escrevem apenas para exercer a sua existência enquanto ser dotado de capacidades inatas de comunicar-se para manter-se em convívio com sua comunidade.

Do outro lado, há aquelas que além deste fator vital, exprimem na escrita uma extensão de sua essência, como se as linhas desfiadas no papel ou digitadas na tela do computador fossem rastros de sua pele, com todo o suor, ânsia e desejo responsáveis pelo movimento da vida.

Neste ponto, uma bifurcação: Existem aqueles que têm paixão pela escrita e a exercem apenas em seu lado mais íntimo, e há aqueles que ultrapassam esta linha para fazer disto o seu ofício, juntando prazer e ganha-pão num só pacote, numa utopia hedonista recheada com suor, frustrações, êxitos, lágrimas e sorrisos. Eu me concentro entre a primeira e a segunda categoria.

Por um lado, vejo inúmeras possibilidades de adquirir conhecimento e compartilhá-lo com as pessoas ao meu redor. Por outro, está a necessidade de um suporte acerca de recursos que poderiam me ajudar nas apurações dos fatos, garantindo a execução deste trabalho de forma a entregá-lo da melhor maneira possível, com foco e honestidade, para servir adequadamente a quem busca por informação, fator importante numa democracia.

Ao iniciar um blog, firmei um compromisso com minha paixão pela escrita. Ao querer buscar materiais originais e autorais, tanto de texto quanto de fotografia, firmei um compromisso com o meu prazer e orgulho de ver um trabalho realizado com meu esforço e talento lapidado ao longo dos anos..

Mas aí entra o fator realidade: como poderei buscar tudo isto sem condições materiais? Para este blog existir, foi preciso que eu trabalhasse para poder comprar este computador, ter acesso à banda larga, parcelar a minha câmera, manter-me na faculdade para obter a técnica necessária para domar minhas palavras, e toda uma cadeia extensa de fatores que contribuem para o aparentemente simples ato de apertar teclas e botões que publicam estas letras que você lê agora.

Como podemos ver, há muito mais entre o nosso pensamento e o botão "enter" do que supõe nossa vã filosofia.

A atual crise da mídia tradicional está apontando um fato curioso que figurará nos livros de história daqui a alguns anos: Estamos vivendo uma era de transição, onde a sociedade digital rompe com o tradicional modelo de emissor - canal - receptor. De posse de um computador, as linhas já tênues entre estes agentes agora tornam-se quase invisíveis, dificultando a identificação do que possa ser uma informação confiável.

As pessoas hoje têm condições de chutar longe aqueles funis que selecionavam o que seria ou não visto pela população, e agora suas vozes têm uma chance maior de serem ouvidas. O problema é a quantidade de vozes e o que elas dizem. Não seria exagero afirmar que adentrar na internet sem uma bússola pode resultar numa overdose de informação, sendo grande parte dela descartável. Por que você acha que (ainda) existem os grandes portais vinculados à tradicionais veículos de comunicação?


Imagine uma realidade onde todos fossem emissoras de si mesmos. Que tipo de informação seria veiculada, e  a quais interesses ela seria atrelada? Todos falariam e ninguém se escutaria. No hall dos interesses, a informação neste mundo hipotético não seria muito diferente da que encontramos no Brasil, onde ocorre o contrário desta multiplicidade: a comunicação se concentra nas mãos de poucos, moldando-se às formas que o poder assume de tempos em tempos. Cada um defende e trata de assegurar o seu.

Mas ainda assim, com legislação e códigos de ética transmitidos entre membros da categoria, consegue-se minimizar os estragos desta centralização de conteúdo, espremida entre o dever ético de informar e servir à população e à necessidade de pagar contas, como qualquer outra empresa inserida no capitalismo.

O que se torna claro com este argumento, é que ainda que se encontrem percalços no manejo da comunicação, a mídia tradicional consegue exercer o seu papel. Vejam o meu caso. Se eu me propusesse a investir meu tempo de forma mais intensa nesta plataforma de informação que é o blog, seriam necessários recursos que me possibilitassem a colheita de informações para que elas pudessem chegar de forma eficiente a quem me lê. 

Se a presidente está numa reunião sobre mídia e democracia numa cidade à 150 quilômetros de mim, o que seria relativamente perto numa viagem de carro, eu precisaria ter: um veículo, dinheiro para custear o combustível deste veículo, além de materiais como um gravador para captar o áudio e uma câmera eficiente que me permitisse tirar fotos e quem sabe até mesmo filmar, entre outras coisas importantes como o acesso aos contatos certos que me possibilitem uma coleta mais completa de informações. E isto tudo é somente a ponta do iceberg comunicacional que envolve uma infinidade de profissionais que levam a sério o seu trabalho, que estudam e praticam suas capacidades para este fim.

E o que vemos na internet? Muitas pessoas exercendo os seus direitos de expressão, com alguns ótimos exemplos, mas ainda assim, galgados na informação colhida pela mídia tradicional. A sua vizinha que estuda moda só pôde fazer uma análise da nova coleção de Stella McCartney por que uma inifinidade de fotógrafos e diversas revistas especializadas estiveram nos desfiles para trazer esta informação à publico, com o devido tratamento textual e imagético. Ou você acha que as pessoas que foram ali vão escrever qualquer coisa e registrar imagens de qualquer maneira?

O seu primo só poderá fazer uma crítica de um disco de uma nova banda, por que ela precisou se utilizar de estratégias mais encorpadas de comunicação, ou você acha que basta gravar uma canção e simplesmente postá-la no MySpace, para ser ouvida por milhares de pessoas? Quantas bandas igualmente talentosas deixam de chegar ao seu ouvido, e quantas outras que não merecem ser chamadas de bandas, mas sim de bandos, chegam ao seus ouvidos de forma indesejada?

Este blog e sua frequência um tanto ou quanto relapsa de atualização reflete bem este paradigma: Meu desejo é ser original e autoral, mas até isso tem um custo. Me custa tempo, que utilizo em minha formação acadêmica para me comunicar de forma eficiente e responsável, e me custa dinheiro que não possuo para estar nos lugares que desejo, para extrair materiais de maneira adequada, que satisfaçam ao perfil desta plataforma de comunicação. Caso contrário, eu seria mais um mero reprodutor das poucas notícias que se multiplicam aos milhões num copia-e-cola elevado à enésima potência. O que eu acrescentaria ao mundo da informação? Nada. Mais do mesmo.

Daí a atual crise das mídias tradicionais: Assim como todos nós, elas também têm contas a pagar, nesse caso, o salário de seus empregados, entre outras responsabilidades financeiras. Com menos pessoas lendo jornais e revistas, eles não terão condições de poder executar a tarefa de investigar, informar e educar. Isto atinge qualquer setor. Como viver de algo que não te dá condições de viver? Se você realmente ama o que faz, pode até continuar a fazê-lo, mas em segundo plano, ou então mudar de carreira totalmente, por que as necessidades intrínsecas do ser humano não desaparecem para dar espaço aos nossos desejos.

Imagine um filme de Hollywood, daqueles feitos para circular no circuito pipocão, com efeitos especiais e tudo o mais que tem direito. Se não houver retorno que compense o gasto empreendido com a película, a qualidade dos próximos trabalhos irá baixar, é lógico. Ninguém paga para trabalhar, e sim o contrário.

Assim se encontra o nosso cenário atual de comunicação. Estamos imersos num furacão que nos fascina pela possibilidade de democratizar a informação, o que é muito louvável, pois dá a chance de germinar boas idéias que nunca tiveram espaço, gerando bons frutos para a sociedade. Por outro lado, este mesmo furacão está amparado pela tecnologia que evolui no seu ritmo natural, que está uma velocidade muito acima da nossa capacidade de percebê-la. Daí a overdose.

Como filtrar esta informação, e como não cair em boatos que se espalham, afetando o mundo real, como a última suposta enchente de Tapacurá no Recife, ou a quem devemos reclamar quando um político se utiliza de manobras excusas numa campanha eleitoral e alega desconhecer a autoria de vídeos postados no YouTube que distorcem informações valiosas à formação de opinião dos eleitores? 

A partir destes exemplos, vemos o quanto a informação é importante para o funcionamento de uma nação e do quanto ela é imperativa para a democracia.

Eu, por não estar amparado por melhores condições para realizar meu trabalho, posso ser considerado um amador. Por outro lado, a atual descrença nos veículos tradicionais, que  se envolvem em jogos de interesse, como vimos nas últimas eleições brasileiras, faz com que a mídia alternativa cresça em acessos.

Resumo da ópera: A nova mídia, como chamamos as plataformas digitais, vieram para ficar. Mas ela está amparada num plano extremamente volátil, onde pessoas com espírito profissional e amadores até a alma, com intenções nada bonitas, circulam no mesmo saguão.

A mídia tradicional não morrerá, mas não sairá incólume à chegada de sua contraparte eletrônica, e com certeza, deverá passar por transformações para justificar a sua existência e continuar informando como se deve.

2 comentários:

  1. Você é MUITO BOM, meu amigo!!! Beijos! =*

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  2. Ju, você é um profissional graduado em Comunicação (aliás, multigraduado, né?). Não pode ser considerado amador em nenhuma hipótese. Não dá pra considerar profissionalismo e/ou amadorismo apenas pelos aparatos técnicos da coisa toda... Tem uma relatividade aí! Mas, isso é assunto pra mais umas tardes de café! =) Bejus!

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