segunda-feira, 2 de maio de 2011

A vulnerabilidade de todos os atos

Engana-se quem pensa que qualquer ato concreto seja completo e acabado em si mesmo. Os nossos feitos, uma vez que deixam o campo de nossas mentes para se aterem ao mundo real, deixam de ser nossos para pertencer à visão que os outros têm deles próprios, de nós, e do resto do mundo.

Escrevo isso em razão da consideração que tenho com os poucos que me lêem e aos que menos ainda me dão feedback no que realizo. O que significa algo para você sempre será diferente, para mais ou para menos, na concepção dos outros. E assim vamos seguindo, numa comunicação onde tentamos ser compreendidos, se não completamente, ao menos num contexto em que as distorções sejam mínimas, a fim de evitar possíveis mal entendidos e sentimentos feridos.

Ao anunciar o fim da Cajumanga, pelo menos da maneira como eu vinha conduzindo, pintei um quadro com as tintas da honestidade que me eram urgentes e extremamente necessárias, pela minha insatisfação e cansaço em relação ao esforço de teor profissional com o qual me comprometi. Era o mesmo que trabalhar numa revista que além de não me pagar, não dispunha de suporte necessário à ideal execução de meu trabalho. É como enviar um repórter à cobertura de algo importante no centro da cidade, sem recursos como câmeras fotográficas, ou o transporte que o faça chegar a tempo e desempenhar seu trabalho de modo equivalente aos demais.

Portanto, decidi dar satisfação aos que me acompanharam desde o começo e aos que chegaram agora, anunciando este fim entre aspas.

Para que a mensagem pudesse chegar a todos de forma mais eficiente, decidi utilizar os serviços de ferramentas que poderiam divulgar o "fim" ao longo da semana, em horários e dias pré-determinados, para que todos fossem avisados. Coisa que faço quando quero divulgar um mesmo post ao longo do dia, ou um sorteio ao longo de um mês.

Ontem, a comunicação textual (sem ritmo, entonação de voz, gestos e olhares) provocou em mim o temor de que eu pudesse estar sendo mal interpretado por uma grande profissional a quem considero muito. Em um recado não endereçado, ela mencionou o fato do mundo não girar em torno de nós mesmos.

Na mesma hora, eu gelei. Este recado tinha saído do forno sete minutos após a última postagem a respeito da Cajumanga, o que me fez indagar se teria sido pra mim. Espero do fundo do meu coração que não, pois me deixaria muito triste se uma pessoa me nivelasse a este aspecto, sem ouvir da minha própria boca e olhar nos meus olhos, apesar da escrita.

Muitos crêem na segurança do que está escrito, por estar registrado. E é justamente aí que fazem a terraplanagem ideal para a construção de possíveis equívocos. Registros são apenas registros. E há de vários tipos. O da guerra do Golfo Pérsico, com a invasão do Kuwait pelas tropas do Iraque no início dos anos noventa, por exemplo, nos mostrou de longe, aqueles pontos luminosos que passeavam de um canto a outro da tela, que mais lembravam um videogame, varrendo para baixo do tapete o horror que se instalou nas redondezas daqueles alvos. Alguém lembra de ter visto alguma mutilação, alguma lágrima, gente correndo, a fome, a sede e a morte trazidas em doses homeopáticas àqueles que não foram dizimados de uma só vez pelas explosões?

Por isso eu quero do fundo do meu coração acreditar que eu possa ter mal interpretado o seu recado, assim como os meus torpedos ao longo dos últimos dias possam tê-la feito pintar um quadro um tanto quanto egocêntrico da minha pessoa.
Registros são sempre bem-vindos e necessários. Ainda assim, passam longe da perfeição. Eles ainda não conseguem mostrar todas as nuances que compõem a aquarela de uma decisão e de um desejo.

#ficaadica.

2 comentários:

  1. Postei algo assim no meu Twitter ontem. Mas acho que não sou eu a pessoa do fato né? Até pq eu faço a vibe "direta" e não a "indireta". E tb pq eu ainda tô no estágio de pequena profissional. kkkkk. Amanhã tá de pé, né?

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  2. Amei a nova proposta textual da CajuManga,eu acredito que a arte mais complexa para um blogueiro ( ou profissional do ramo do jornalismo ) é conseguir se recriar dentro da mesma base. Acrescentar um pouco ( ou muito ) de si ao texto, é algo extraordinariamente louvável.

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