quarta-feira, 18 de maio de 2011

Delírios, de Tom Di Cillo

Estamos definitivamente na era da imagem. Reputações são moldadas por assessores de imprensa, o interesse do público pelo ínitmo é munição de audiência entre veículos e toda uma espetacularização dos altos e baixos alheios ditam as regras e refletem o atual estado da relação entre o homem e seus anseios.



Para ilustrar esta relação onde o homem consome e é consumido pela indústria de celebridades, temos como exemplo "Delírios", filime dirigido por Tom DiCillo e estrelado pelo Steve Buscemi e pelo Michael Pitt.



"Delírios" é a comprovação de que o melhor do cinema norte-americano está correndo por fora do circuito comercial. Os melhores roteiros, os melhores atores, cada vez mais me surpreendo com estes títulos que me fazem ir cada vez mais aos chamados cinemas de arte, pois estas obras dificilmente conseguem espaço nas grandes salas de exibição.

Pra quem ficou curioso, "Delírios" é uma história como todo conto de fadas deveria ser escrito. Engana-se quem olha para este gênero esperando algo infantil, inofensivo e raso. Contos de fada sempre carregaram mensagens metafóricas, paradigmas e reflexões acerca das relações entre o homem e o mundo. O problema é que para se contar histórias às crianças, há que simplificá-las, pelo fato das mesmas não possuírem bagagem de vida suficiente para absorver o real conteúdo dessas histórias. E aqui, ela é contada com foco no mundo das celebridades, flashes e desejos, assunto tão sedutor que encontra-se no seu ápice, ditando tendências e moldando o comportamento do homem moderno.




Pois bem, neste filme temos Les, um paparazzi de ponta de esquina que poderia ser comparado a um advogado de porta de cadeia. Interpretado pelo ótimo Steve Buscemi, Les é a tradução do homem frustrado e confuso que encontramos nos centros urbanos ao nosso redor. Invejoso, egoísta e ambicioso, ele cruzará o caminho de Toby, um jovem sem teto e sem perspectivas interpretado magistralmente pelo subestimado Michael Pitt. (que não, não tem parentesco algum com o Brad.)

Tanto Les quanto Toby vivem num mundo à parte e a amizade que desenvolvem os acorda pouco a pouco para a realidade, onde o diretor faz questão de expor com uma boa dose de cinismo a relação entre seus personagens e a fama, o reconhecimento, suas metas e a realização profissional e pessoal. Ninguém nesta história é inocente e no fundo sabem disso. Mas dançam conforme a música, mostrando assim as engrenagens, sujeiras e vazios existenciais e financeiros desta máquina que é a indústria de celebridades.

Ah, claro. Não poderia faltar o amor. Ele também aparece, mas não da maneira açucarada e rosa a qual estamos acostumados nas películas hollywoodianas. O objeto do afeto de Toby é a cantora Pop Kharma, interpretada pela atriz Alison Lohman, convincente como uma princesa teen tão desorientada quanto as colegas da vida real que volta e meia visitam os tablóides.



Como você pode ver, são temas simples que estão presentes na vida de todo mundo, o que poderia ser um risco: como falar de coisas tão simples e presentes, mas ao mesmo tempo tão fascinantes, sem cair no piegas?


Simples: Junte um roteiro bem amarrado, com reviravoltas que te fazem não sair da cadeira até o filme terminar, um humor inteligente, bons atores com interpretações honestas, boa trilha sonora e pronto! Claro que isso não é fácil de conseguir num filme só. O diretor tem que ter feeling pra juntar tudo isso e o Tom DiCillo é um ótimo contador de histórias. Exibido sem muito alarde nas sessões de arte, este filme teve um lançamento modesto em DVD e é do tipo que se você tiver a chance de comprar uma cópia, faça isso assim que o ver. São poucos os filmes que são dignos de se ter em uma videoteca, e "Delírios" é um deles. Mais do que um filme, ele é uma crônica honesta e bem feita sobre o culto à celebridade, indústria cultural e as aspirações que ela imprime por osmose no homem moderno.

Eu recomendo!

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