terça-feira, 12 de abril de 2011

Uma varanda com vista para a ditadura

O Brasil é um país rico em todos os sentidos. E infelizmente, é também desatento com suas pedras preciosas, que se espalham nas diversas áreas. São escritores, instrumentistas, letristas e toda uma série de jóias lapidadas pela excelência que o país desconhece ou esqueceu. Na literatura, por exemplo: A quantidade de autores é tão grande, que o leitor brasileiro se espanta ao perceber que podemos ir além de Machados, Drummonds, Veríssimos, Amados, Ramos, Queiroz e tantos outros consagrados.

Se por um lado é uma injustiça ter grandes obras sem a devida chance de estarem mais presente nas rodas literárias, por outro, é de uma satisfação enorme poder conhecê-las e nos dar a chance de conhecer o restante da obra e vida por trás destes livros.

É o caso de Josué Montello, Jornalista, professor, romancista, cronista, historiador, ensaísta, orador, teatrólogo e memorialista, nasceu em São Luis do Maranhão em 1917 e falecido em 2006. Na sua trajetória, Montello já foi conselheiro cultural da Embaixada do Brasil em Paris; reitor da Universidade Federal do Maranhão; professor de Teoria da Literatura da Faculdade de Letras Pedro II (FAHUPE); Embaixador do Brasil junto à UNESCO; e presidente da Academia Brasileira de Letras.


A quantidade de medalhas e condecorações nacionais e internacionais concorre com a extensão de sua produção, que envolve romances, novelas, crônicas, ensaios, textos para cinema e teatro, obras de literatura infanto-juvenil, prefácios e antologias. Sua obra mais famosa é "Os Tambores de São Luis", de 1965, onde se percebe sua paixão pelo estado em que nasceu e cresceu. Mas uma obra se destaca entre as demais, justamente por trazer à tona o seu lado historiador e polêmico. Trata-se de "Uma Varanda sobre o Silêncio", de 1984. Neste livro, Montello se revela um cronista do seu tempo, ao tratar do desaparecimento de civis durante o regime militar, lançando o livro justamente no momento de abertura política brasileira. Tocar uma ferida tão sensível e profunda parecia tarefa para poucos, e Josué o fez com maestria.




O livro conta a história de Luciana, uma típica mãe de classe média alta, desquitada e meio desligada deste mundo, que vive confortavelmente com seu filho Mário Júlio e sua fiel escudeira Dorinha, cuja cumplicidade e fidelidade lembram a Tia Nastácia, das histórias de Monteiro Lobato. Luciana também convive com a figura carinhosa e sempre solícita do Tio Acrísio, que nem tio dela é, mas sim, do ex-marido, que após a separação designou seu paciente parente como único intermediário entre ele e a ex-esposa para as questões financeiras e o que mais ela precisasse.

Cuidar de Mário Júlio sempre fora um motivo de orgulho para esta mulher, ex-professora e cujo mundo se resumia ao filho após o divórcio. Antes muito próximos, a entrada de Mário Júlio na universidade e seus novos hábitos o levam a um mistério que cerca o seu desaparecimento no auge dos anos de chumbo.

Aparentemente acima de qualquer suspeita, a vida do rapaz caminha para um labirinto de dúvidas quando a busca por pistas que revelem o seu paradeiro fará Luciana embarcar numa viagem de contradições, angústia, intrigas e esperança.

Justamente por ser um escritor muito ativo, experimentando diversos meios de expressão - do romance ao teatro, do artigo jornalístico ao ensaio histórico, Josué Montello possui uma prosa elegante e fluída, o que reflete a sua formação intelectual. Para quem o desconhece, pensa se tratar de um autor português, por utilizar palavras que não são utilizadas tão frequentemente aqui no Brasil, assim como termos aportuguesados. No caso de “Uma Varanda sobre o Silêncio”, termos como “Living”, de Living Room, é escrito “Lívingue”, coisa que eu nunca desconfiei existir em português. Os substantivos, manejam e são manejados por verbos firmemente plantados no campo da ação, e servidos por adjetivos e advérbios absolutamente necessários à estruturação da história.

A sólida formação intelectual de Josué Montello se faz sentir em todos os ensaios e artigos que escreveu, sempre permeados por análises precisas, argutas e diretas, graças ao vasto conhecimento que detinha. Ao passo que no livro, ele faz uma intensa abordagem psicológica da trama e dos personagens, como vimos na figura de Luciana. Ele possui um estilo que lembra o de Machado de Assis: clássico e sumamente elegante, que reconstrói com maestria e densidade psicológica toda a arquitetura de vida de um tempo que passou. Neste caso, os anos do regime militar até os seus últimos momentos, com a anistia dos exilados. Ler os eventos que são ilustrados em “Uma Varanda sobre o Silêncio”, é visualizar todas as cenas como num roteiro cinematográfico, tantos são os detalhes e referências físicas e culturais da época abordada.

Há referências à marcos de nosso tempo, como por exemplo, às mães da Praça de Maio, mulheres que se reúnem em Buenos Aires para reivindicar frente ao governo, informações sobre seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina, seqüência do livro cujo ícone é Dona Suzana Carvalheira, personagem cujos filhos estão exilados e mostra-se como um novo fôlego motivador para Luciana na busca por seu filho Mário Julio. Conseguiu Josué unir a sabedoria da ficção clássica, seguindo uma crescente verve dramática, que leva a narrativa a um ápice de interesse. O livro avança lentamente, com uma narração que envolve, onde o autor deixa os temores e as angústias dos personagens expostos com um cuidado que realça o conjunto das cenas.

Atualmente, "Uma Varanda Sobre o Silêncio" encontra-se fora de catálogo, mas ainda pode ser adquirido por sebos virtuais ou nos mais próximos da sua cidade. Vale à pena conferir.

Um comentário:

  1. Eu quero “Uma Varanda sobre o Silêncio” Montello é realmente um escritor de classe. Amo

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