terça-feira, 12 de abril de 2011

A sociedade sem perfume



Volta e meia surgem filmes que fogem do padrão cinema-pipoca dos circuitos comerciais, que possuem uma história acima da média e geralmente com o efeito de uma bofetada na cara de quem o assiste. Filmes assim fazem a gente pensar, atividade que o público comum dos multiplexes não tá nem um pouco a fim de fazer. Quando são produzidas obras deste quilate, elas passam pouco tempo em cartaz e sofrem com o lançamento limitado em DVD para logo em seguida se encontrar fora de catálogo.

“O Cheiro do Ralo”, filme dirigido por Heitor Dhalia, em 2006, é um caso atípico de cinema de baixo recursos e altíssima qualidade. Com uma breve carreira no cinema, ele se põe como uma relíquia em nas videolocadoras onde está disponível. Pena dos estabelecimentos que não o possuem.

Infelizmente, como muitas obras brasileiras de qualidade, muitos podem subestimá-lo. Mas não se engane. "O Cheiro do Ralo" tem origem no livro homônimo do paulistano Lourenço Mutarelli, conhecido também por seu trabalho como autor de histórias em quadrinhos. Para absorver melhor a visão do seu universo, é necessário mergulhar em suas outras obras. A partir daí, pode-se entender toda a estrutura narrativa que compõe o personagem principal, e a cadeia de acontecimentos que o envolvem. Essencialmente autobiográficas, as suas criações refletem as particularidades que compõem o cenário contemporâneo das relações humanas. Estão lá a tragédia, a melancolia, as frustrações, a solidão e a insegurança, com as quais Mutarelli desenvolve enredos com propriedade, por ele mesmo ter provado crises de síndrome do pânico.




No livro, tudo o que sabemos sobre o personagem principal é a sua idade e as suas neuras. No filme, um pouco mais é acrescentado: ele recebe o nome do autor da história. É uma justa homenagem e uma boa pista para a compreensão dos diálogos certeiros, que vêm velozes como um canhão que dispara na cara do espectador a personalidade instável do homem enquanto ser urbano que se encontra em situações limites, sem espaço para o moral e para o ético.

Então, chegamos a Lourenço, interpretado por Selton Mello, que partiu de um sentimento do próprio autor da história em relação à obtenção e venda das coisas. Ele próprio afirma que não consegue vender ou comprar nada sem tomar prejuízo, e se acha muito maltratado no comércio. Daí para estabelecer uma ponte entre as perdas e ganhos individuais foi um pulo. A loja de compra e venda de objetos usados administrada pelo protagonista do filme recebe a visita de personagens em situação de desespero, dispostos a obter dinheiro com a venda de seus pertences. Objetos ou indivíduos, qual a diferença?

É neste momento que vemos o desenvolvimento de uma metáfora quando Lourenço afirma que para se obter lucro com as compras, é preciso oferecer um preço bem abaixo do proposto: ele encontra um prazer sádico em assistir o desespero daquelas pessoas, seja rebaixando o valor daquilo que elas necessitam passar adiante, ou até mesmo recusando-as, num exercício de poder de uma vida vazia. As vidas que por ali passam é que estão à venda.

Se fosse possível utilizar a expressão “coisificação” dos indivíduos, este seria um dos milhares exemplos desta prática. Lourenço trata os outros como coisas. Mas onde entra o tal cheiro do ralo? Este odor desagradável que dá título ao filme também vem de uma experiência na vida real: segundo o próprio Lourenço Mutarelli, o banheiro do quarto da empregada do apartamento onde um dia trabalhou exalava um cheiro terrível. O personagem Lourenço passa grande parte do filme tentando confrontar este cheiro e os comentários que o odor provoca em quem visita sua loja. O cheiro rende ótimas passagens com questionamentos reflexivos. Em uma das cenas, Lourenço é confrontado com a idéia de que o cheiro possa vir dele. Ao responder que o problema do cheiro vem do ralo do banheiro, ele é indagado “E quem utiliza aquele banheiro?” Ele prontamente responde: “Eu”.





As outras obsessões vêm de um olho de vidro que ele diz ter pertencido ao seu pai, numa tentativa de construção de uma imagem para suprir a carência por um pai que nunca teve. E de uma bunda que pertence à garçonete de uma lanchonete que passa a freqüentar como o preço necessário para poder admirar o seu objeto de desejo. E desta forma, vemos o personagem procurando um sentido para a própria vida, entre o caos que ele mesmo constrói pelo estilo de vida que escolheu para levar.




Sendo uma adaptação bastante fiel ao livro de Lourenço Mutarelli, a narrativa com diálogos secos sem maiores rodeios é um mérito do ritmo do próprio livro, aqui adaptado por Mutarelli em parceria com Dhalia e Marçal Aquino, autor de “O Invasor”, também adaptado para o cinema. Os diálogos não deixam espaço para entrelinhas. Eles são tão personagens quanto Lourenço, a garçonete, a empregada, o segurança, a noiva... Em determinada cena, temos Lourenço conversando com sua empregada, a quem ele chama de Luzinete:

- O senhor desmanchou o noivado não foi?

- Senta aí. É uma história cumprida, vou tentar resumir pra você. Lá onde eu trabalho tem um banheirinho, e eu tive um problema lá com o ralo, e começou a vir um cheiro ruim, um cheiro muito ruim. Eu comecei a ficar nervoso, irritado. Aí eu acho que eucomecei a descontar nas pessoas, na minha vida, sei lá.

- Porquê você não mandou consertar?

- É. Fui deixando passar.

- É, a vida é assim mesmo seu Lourenço. A gente vai deixando as coisas passar, e elas vão crescendo. No começo a gente não quer brigar porquê é coisa pouca, né? Mas aí vai crescendo, crescendo. Que nem panela de pressão, uma hora explode.

- É isso mesmo.

- Hmmm. Quando comecei a trabalhar eu tinha que ser forte, eu tinha que ser frio, porquê eu compro as coisas das pessoas. Eu tinha que oferecer um valor bem baixo pra poder ter lucro. Mas no começo eu tinha pena das pessoas. Mas eu não podia ter pena. Se não eu não ia chegar onde eu cheguei. Aí eu comecei a ficar frio, cada vez mais frio, fui ficando cada vez mais frio.

- E o quê que o senhor ganhou com isso, sendo frio desse jeito?

- Não sei.

- É, isso deve ser triste.

- Não sei se triste é a palavra certa.

- O senhor quer mais um café?

- Ô, Luzinete, eu vou aceitar, viu?

- Seu Lourenço, vou aproveitar que a gente tá aqui conversando, tem oito anos que eu trabalho pro senhor, meu nome não é Luzinete não, é Josina.

Os planos e movimentos de câmera nos dão uma proximidade, uma intimidade com o protagonista, e acaba se tornando um recurso utilizado para adentrarmos em suas neuroses. As diferentes tomadas foram utilizadas magistralmente, talvez como uma forma de não deixar o filme devagar e monótono pela escassez de locações. O tom amarelado e pontos como a estrutura fechada do galpão de Lourenço mostram como a criatividade pode superar as dificuldades de se fazer cinema no Brasil, ainda mais um filme com uma temática marginal, que se não fosse o conjunto composto por uma adaptação bem realizada, um ator que se envolve com o que faz e a direção competente de Heitor Dhalia, se perderia em meio a tanto caos. A obra de Mutarelli não poderia ser levada às telas por uma equipe que não tivesse este nível de comprometimento e paixão pela sétima arte.






Um comentário:

  1. Filme e texto sensacionais. Pena das locadoras.
    Tenho curiosidade para ler o livro. Vou colocar na lista (enorme por sinal).

    Abraço, cara.

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