quarta-feira, 20 de abril de 2011

Rio: Um banquete para os ouvidos

Chegou esta semana às lojas o CD com a trilha sonora da animação "Rio", atual campeã nas bilheterias deste primeiro semestre no mercado cinematográfico brasileiro e internacional. Produzida por Sérgio Mendes, a compilação apresenta 14 canções inéditas, entre elas sete composições de Carlinhos Brown e uma regravação da clássica "Mas que Nada", de Jorge Ben (jor), praticamente um hino identificador do Brasil ao olhar estrangeiro, mas nem por isso, menos empolgante.

Aliás, o termo "empolgante" é pouco para descrever a festa sonora que "Rio" oferece aos ouvidos. Para um filme de proporções épicas, que prima pelo esmero técnico e visual, a sua trilha de músicas não poderia ficar atrás. O diretor Carlos Saldanha, que vive há 20 anos nos Estados Unidos, conseguiu através de sua animação, proporcionar uma aura alegre e nostálgica de sua cidade natal, sentimento que acomete a grande maioria das pessoas que por um motivo ou outro, têm de deixar a cidade maravilhosa.

E para fazer o Rio de Janeiro da animação soar como o Rio de Janeiro dos saudosos, ele convidou ninguém mais, ninguém menos, que Sérgio Mendes, mais um "exilado" que construiu uma carreira sólida no exterior, levando o Brasil em todos os seus trabalhos.


A música de Sérgio Mendes é bastante conhecida pelo público estrangeiro, tendo se estabelecido no mercado desde o fim dos anos 60. Ele é conhecido por promover uma junção entre o samba e o jazz, tendo como resultado uma música brasileira mais refinada, com luxuosos arranjos de corda e piano, sem perder a energia habitual das raízes percussivas do Brasil.

Sérgio, Carlinhos e Mikael Mutti no estúdio de Mendes, California, Estados Unidos, durante a gravação do disco.

Mas Sérgio Mendes queria mais. Ele desejou unir a excelência técnica com o improviso e a criatividade, qualidades mais intensas do baiano Carlinhos Brown, descoberto por Mendes há 20 anos. Fundador da Timbalada, Brown não conhece limites para se extrair sons à partir de qualquer coisa que esteja ao seu alcance. Pode ser uma lata de leite vazia, uma tampa de plástico, caixas de fósforo... As possibilidades são imensas.

O resultado desta união é a seguinte analogia: se a trilha sonora de "Rio" fosse comida, ela seria uma mesa de mais de 20 metros composta pelas diversas cores, texturas, cheiros e temperos da culinária brasileira, impregnada com o toque de todas as culturas que por aqui chegaram. Neste buffet, o ouvinte teria direito à todas as sutilezas que fazem parte de um prato.

Por exemplo, não se pode imaginar um vatapá sem azeite de dendê. Quem assim o prova, sente falta. Da mesma forma que não se pode imaginar um samba sem cuíca e um coro entoando maneirismos vocais ritmados, que completam o quadro percussivo e ajudam na marcação da batida.

Por isso, a trilha sonora do filme "Rio" funciona muito melhor num potente aparelho de som, do que no fone de ouvido minguado do seu aparelho de mp3. Basta ouvir a primeira música que abre o CD para ter a impressão de estar no meio de um desfile de escola de samba. Se houver a possibilidade de experimentar o disco num aparelho de home theater, faça isso urgentemente, e você nunca mais irá questionar a qualidade do som original frente à compressão sonora do MP3.

Desde o lançamento do filme, os elogios à obra têm sido unânimes, principalmente à sua trilha sonora. Basta digitar "Rio + Soundtrack" no YouTube para ouvir as canções e acompanhar os comentários de quem assistiu: Todos querem baixar suas canções preferidas, e a temporada de caça aos links de downloads foi aberta.

E O MP3 NESSA?

Se por um lado isso possibilita que mais pessoas entrem em contato com as músicas, por outro, soa paradoxal. o MP3 é um formato de som que comprime faixas do arquivo sonoro que seriam inaudíveis ao ouvido humano, deixando-o mais leve e apto a circular pela internet, pelos pen-drives e pelas mídias de armazenamento como CDs e DVDs. Por exemplo, um arquivo de som presente num CD prensado, comprado em loja, tem em média 44 Mb. O mesmo arquivo, comprimido para MP3, tem apena5M em média, numa qualidade considerada alta. Mas a qualidade sonora não é tão satisfatória, nem compensa o trabalho detalhado de quem esteve envolvido na produção das músicas em questão.

Fazendo uma comparação, ouvir "Rio" em MP3 é o mesmo que ler uma xerox manchada de um livro, podendo comprá-lo sem comprometer a sua retina e a ideal leitura do mesmo.


CONHEÇA O DISCO, MÚSICA POR MÚSICA:

Favo de Mel (Real In Rio, na versão gringa do CD) - A música de abertua, que causou uma boa impressão, mostra a fartura de cores da fauna, da flora e dos ritmos brasileiros. Começa com os assovios de passarinhos, num crescendo que os coloca como marcadores do samba que se forma aos poucos. Logo, vêm os intrumentos típicos do ritmo, como a cuíca, o agogô, o surdo e o coro, luxuoso, por sinal: a cantora de Jazz Luciana Souza, Siedah Garret, parceira musical de longa data de Michael Jackson, Gracinha Leporace, esposa de Sérgio Mendes, entre outros, são o Rio Singers, que enriquecem os sambas tanto na versão brazuca, quanto na versão em inglês. Na versão brasileira, os primeiros versos são em português, o que dá mais naturalidade à experiência sonora (Acreditem, é meio estranho ouvir o nosso samba cantado em inglês). Os dubladores Jesse Eisenberg, Jamie Foxx, George Lopez, will.i.am e Anne Hathaway (muito afinada, por sinal) dão as caras (ou o gogó) na segunda metade da canção, cantada em inglês)

Let Me Take You To Rio - Letra e voz de Carlinhos Brown, acompanhado de um verso chiclete em inglês cantado por Ester Dean. Esta música ilustra a chegada da arara Blu ao Rio de Janeiro. Esta canção transporta o ouvinte para um cenário suave e terno, sem perder o clima do gingado brasileiro. Um discreto piano dá o toque final desta bela (porém curta, com gostinho de quero mais) canção.
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Mas Que Nada - Esta é de casa, e praticamente um hino brasileiro fora do Brasil. de autoria de Jorge Ben (Jor), esta canção foi regravada várias músicas por diversos artistas, e aqui ela ganha mais uma releitura que pouco difere da versão original. Acompanhadas de um novo arranjo de cordas, quem canta aqui é Gracinha Leporace, esposa do Sérgio Mendes, uma senhora cuja voz lembra muito as saudosas cantoras do rádio, mas que deve ter vivido tanto tempo fora do Brasil, que carrega consigo um leve sotaque gringo.
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Hot Wings (I Wanna Party)
- Black Eyed Peas vira a esquina e se depara com uma escola de samba. E isto é tudo para definir o perfeito casamento do Brasil com a música black norte americana, nas vozes de Will. I. Am e do ator Jamie Foxx. Quente, e muito dançante. Sem esquecer o Laiá, laiá da Anne Hathaway no finalzinho da canção, deixando a música muito mais charmosa.
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Pretty Bird - Você até esquece que está ouvindo o disco de um desenho animado, quando se depara com a única canção remanescente deste gênero. Tal qual os musicais da Disney e da Broadway, esta é a música do vilão Nigel e só faz sentido com a história do filme. Quem canta aqui é o neo-zelandês Jemaine Clement, comediante famoso nos lados de lá, e membro de uma banda chamada Flight of the Conchords, que lançou dois CDs bastante apreciados pela crítica e público. O sotaque da Nova Zelândia em sua voz é perfeito para a cacatua macabra do desenho.
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Ararinha (Fly Love, na versão americana)
- Letra e melodia originais de Carlinhos Brown, funciona melhor na voz do baiano, é uma linda canção de amor, meiga e malemolente, que dá vontade de curti-la numa rede, ganhando um cafuné. E é também o perfeito exemplo de que não adianta forçar a barra: Quem nasce pra pop norte-americano, nunca chega à banquinho e violão brasileiro. A versão cantada por Jamie Foxx na triha lançada no mercado estrangeiro não chega aos pés de Carlinhos Brown. Quem escutou, afirma: ela soa mais poética em português.
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Telling The World - Como o filme e o disco estão sendo lançados no mundo todo, não precisa ser um gênio para perceber que seria necessária uma música neutra e pop que pegasse fácil nas FMs. Esta música não tem nada a ver com o clima do disco. Quem canta é Taio Cruz, nascido na Inglaterra, mas de mãe brasileira - ela é carioca, sendo talvez esta a razão simbólica de seu convite para integrar o time sonoro de Rio. Bonita, mas que poderia ser de qualquer outro filme.
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Funky Monkey
- Uma das músicas mais divertidas e a prova da criatividade de Carlinhos Brown: aqui os macacos e os ruídos não figuram por acaso, eles são praticamente a percussão da música, como um beatbox de barulhos que deixam a música ainda mais rica, já emoldurada pelo batidão do funk e a voz com molho de soul da cantora siedah Garret, parceira de longos anos de Micahel Jackson, famosa pelo dueto "I Just Can't Stop Loving You" os vocais se alternam entre a voz da cantora e os versos de Brown e do seu conterrâneo Mikael Mutti, cantando o "Funk do macaquinho". A letra em português é engraçada e criativa, brincando com o espírito serelepe dos simpáticos comedores de banana, que poderia estar muito bem numa moderna versão de "A Arca de Noé", clássico de Vinícius de Moares.
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Te Levar Pro Rio
- (Take you to Rio, na versão americana) - Aqui quem dá as caras é Ivete Sangalo, que foi convidada pelo próprio diretor da animação durante o festival de verão de Salvador. Neste caso, aconteceu o inverso de "Ararinha / Fly Love". Se na primeira, o clima banquinho e violão não combinava com o idioma estrangeiro e a voz de Jamie Foxx, nesta, é fácil notar a produção extermamente pop que não casa com a energia de Ivete, cuja voz está ok, mas o problema é a junção de Sangalo com o pop pasteurizado norte-americano. Não combina. Talvez, se esta canção ganhasse um arranjo mais brasileiro, ela seria mais gostosa de curtir. Não foi desta vez, Ivetão.

Balanço Carioca - Mikael Mutti é baiano, mas poderia muito bem ser carioca, tamanha a intimidade com que ele imprime nos seus vocais com as particularidades vocabulares da cidade maravilhosa. Estão aí as gírias e as expressões facilmente identificáveis de quem é do Rio de Janeiro. Ótimo arranjo instrumental que convida o ouvinte para dançar, com toques eletrônicos, como samplers de instrumentos como o berimbau, acompanhados de percurssão.
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Sapo Cai
- Uma brincadeira com a palavra Sapucaí, avenida onde as escolas de Samba desfilam todos os anos, mostra mais uma vez que Carlinhos Brown é eclético e um compositor acima da média. Enquanto somos atacados todos os anos por enredos que se utilizam do rebuscamento da linguagem para poder estender ao máximo o tempo da canção, aqui temos um "Piuí, piuí, piuí, piuí, piuí. Balança a cadeira pro lado. Não deixa o sapo cair", muito mais divertida, inteligente e fácil de aprender, cheia de brincadeiras silábicas que deixa qualquer puxador no chinelo.
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Samba de Orly
- O perfume e a suavidade que só a Bebel Gilberto e um bom amaciante de roupas podem oferecer estão nesta música. Belíssima composição, dos tempos da ditadura, ela é uma perfeita tradução da saudade que se tem do Rio de Janeiro. E quer saudade pior do que aquela de não poder voltar pra sua terra querida, não por não ter condições, mas por estar exilado? Terá sido esta canção um pedido especial do Carlos Saldanha, que também teve de sair do Brasil para poder crescer, num exílio profissional? Enfim, a música é perfeita, o coro é convidativo e Bebel Gilberto é a cara de um Brasil que sorri.
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Valsa Carioca
e Copacabana Dreams - Pra fechar o disco, Sergio Mendes vem com uma valsinha suave criada no piano. Passe longe dela se você tiver saudades de alguém. Esta música atrai nostalgia de momentos felizes. Já Copacabana Dreams é mais agitadinha, mas seguindo a linha samba-jazz de Mendes, compõe uma das cenas de ação do desenho.
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Achou interessante? Dá pra escutar música por música da versão americana do CD clicando aqui pelo YouTube. As músicas de Ivete e Carlinhos Brown ainda não vazaram. Portanto, corra para garantir o seu CD com a trilha sonora de Rio. Definitivamente, um projeto que não merece ser prejudicado pela pirataria.

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