quarta-feira, 6 de abril de 2011

NELSON MOTTA E A AQUARELA MUSICAL DO BRASIL

Se o Brasil pudesse ser uma estampa numa caixa que contivesse a síntese da espontaneidade de seu povo e da sua arte, certamente o pintor de notável ilustração seria Nelson Motta. Paulista de nascimento, mas com alma carioca devota à cidade maravilhosa que o acolheu aos seis anos de idade, Motta é jornalista, mas também compositor, escritor, produtor musical e letrista. Já trabalhou com todos os grandes nomes da música popular brasileira contemporânea, iniciando sua trajetória musical ao nascer da Bossa Nova. Circulou entre os mestres e tornou-se um deles, tendo legado ao panorama cultural brasileiro mais de 300 músicas, alguns importantes programas de televisão, além de participar do desenvolvimento da indústria fonográfica brasileira, dirigindo gravadoras importantes como a sucursal da Warner Music e da Polygram (atual Universal Music) no Brasil.



Este currículo lhe dá propriedade suficiente para debruçar-se na biografia do DNA musical brasileiro, como fez com "Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia" e o seu antecessor, "Noites Tropicais", publicado em 2000, e que pode ser encontrado em versão de bolso pelo preço médio de R$ 16,00 nas melhores livrarias. 

 "Noites Tropicais" tem o mérito de soar como aquela conversa gostosa a respeito dos "causos" que nos são passados de boca em boca, tendo como produto finais pérolas inesquecíveis e lembranças que desenham sorrisos no rosto de quem ouve. Nelson Motta conta os bastidores da música brasileira como aquela mosquinha que tanto desejamos ser pra saber como terminou esse ou aquele bafafá entre cantores, compositores e suas guerras de egos, festivais, contratos e insights artísticos.

Logo de cara, antes do primeiro caítulo, encontramos uma citação de autoria de Tim Maia, que diz o seguinte:

"- Mais grave!

- Mais agudo!

- Mais eco!

- Mais Retorno!

- Mais tudo!"


Impossível não cair no sorriso e imaginar quão irreverente poderá ser este relato de uma efeverscência artística que não volta jamais. A verdade é que, causos e sorrisos à parte, "Noites Tropicais" é um livro onde a paixão é o personagem principal. Paixão pela música, pela curiosidade, pelo alumbramento frente ao futuro, tão desejado e recebido de braços abertos pelas cabeças pensantes, musicais e etílicas do Brasil da Bossa nova, do Samba Jazz, dos festivais, do Tropicalismo e do Rock.

Tim Maia

Além disso, o livro é uma obra de rara fluidez documentária, que permite ao leitor visualizar os hábitos e a estética da época, como um se filme fosse exibido em nossa mente, tamanho é o carinho com que ele vai de 1958 a 1992, contando os encontros e o crescimento de nomes como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Jorge Ben, Roberto e Erasmo Carlos, Carlos Imperial, Nara Leão, Ronaldo Bôscoli, Elis Regina, Maysa, Wilson Simonal, Ney Matogrosso, Luiz Gonzaga, Caetano Veloso, Gal Costa, Paralamas do Sucesso e Kid Abelha e Marisa Monte, só para citar alguns da generosa lista.

Para entender a sua inserção no mundo da música, Motta descreve, no primeiro capítulo do livro:

"Para nós, garotos de classe média de Copacabana, aqueles cantores da Rádio Nacional e suas grandes vozes, dizendo coisas que não nos interessavam em uma linguagem que não entendíamos, eram abomináveis. Gostávamos mesmo era de praia e futebol, de ver Pelé e Garrincha no Maracanã, dos folhetins de Nelson Rodrigues na Última Hora, das gostosonas da coluna de Stanislaw Ponte Preta, das crônicas de Antonio Maria sobre as noites cariocas, de pegar onda de peito no Arpoador, de romances de aventura e de comédias italianas. E de corridas de cavalos: meu grande ídolo era o jóquei Luiz Rigoni. Apostava — e perdia — no Jockey Club e nos bookmakers até o dinheiro que minha mãe me dava para o lanche no Colégio Santo Inácio. Com 14 anos comecei a nadar todos os dias de manhã nos infanto-juvenis do Fluminense e abandonei meu primeiro vício.

Mas naquelas férias de 1958, em São Paulo, não só comecei a fumar como ouvi num rádio de pilha Spica — a nova sensação tecnológica, novidade absoluta recém-chegada ao Brasil — João Gilberto cantando, “Chega de saudade”. Foi como um raio. Aquilo era diferente de tudo que eu já tinha ouvido, fiquei chocado, sem saber se tinha adorado ou detestado. Mas quanto mais ouvia, mais gostava. Na volta ao Rio comprei o disco, comi a cozinheira e abandonei a natação."

Bossa Nova, antes de tudo, era um estado de espírito. Ao se instalar no cenário musical brasileiro, não caminhava pelo meio termo: Ou era amada ou odiada. Aqueles que levantaram a sua bandeira foram bastante criticados, por estarem inseridos num contexto que não condizia com a realidade sócio-econômica do país. Mas aí é que estava o x da questão: A bossa era pura simplesmente música pelo prazer de contemplar uma canção, com tudo de bom que ela pudesse oferecer a quem escutasse, a quem quisesse um momento de sossego e doses de alegria para o seu cotidiano. A bossa nova era um oásis, uma dose homeopática de felicidade:

"A bossa nova era a trilha sonora que nos faltava, que nos diferenciaria dos “quadrados” e dos antigos, dos românticos e melodramáticos, dos grandiloqüentes e dos primitivos, dos nacionalistas e regionalistas, dos americanos. Tínhamos uma música que imaginávamos só para nós. João Gilberto era nosso pastor e nada nos faltaria."


Gilberto Gil

Mas se engana quem pensa que Nelson Motta se atém apenas a este momento. Como o subtítulo do livro diz, as memórias musicais se desfiam também pela Tropicália, com os arroubos criativos da trupe de Caetano Veloso e Gilberto Gil, com a censura e o regime militar em seu encalço. Uma das passagens mais curiosas mostra toda a engrenagem ideológica envolvida no festival Phono 73, onde Chico Buarque teve o microfone cortado ao tentar cantar "Cálice".

Os anos 80 e o funcionamento da máquina midiática do Brasil são mostrados por Motta, e assim tomamos contato com a construção das instituições anacrônicas que se tornaram as gravadoras musicais, cujo modelo de negócios não viria a sobreviver ao avanço tecnológico com a internet e o formato MP3, alguns anos mais tarde. Deste período, comparecem os contratos, a prática do jabá, a descoberta de novos talentos e o consequente sucesso dos mesmos, as turnês, as brigas, entre tantas outras histórias deliciosas sobre astros como Os Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, Legião Urbana e os festivais como o Rock in Rio.


Kid Abelha e os Abóboras Selvagens

Como as diversas formas de arte estão intimamente ligadas, a televisão e o cinema não fogem à observação carinhosa de Nelson Motta. Em seu livro é possível entender o contexto no qual foram realizados programas consagrados como Armação Ilimitada, sucesso absoluto nos anos 80 pela TV Globo, do qual Nelson Motta foi co-autor, junto com Euclydes Marinho e Antônio Calmon, assim como o filme Menino do Rio, que absorvera a juventude dourada e sua linguagem pop, que viria a contagiar o resto do país num estalar de dedos.

Nesta mesma década, Nelson teve o seu primeiro contato com uma mocinha de 17 anos, que usava longos cabelos cacheados e uma "enorme boca vermelha" que foi à boate Noites Cariocas para assistir ao primeiro show da banda Ultraje a Rigor. Estudante de canto lírico, sonhava em ser cantora de ópera, mas adorava o rock e a MPB. Um doce para quem adivinhar quem é a dona de tais atributos que conquistaria o Brasil ano mais tarde.

"Noites Tropicais" é um livro que vale à pena ser lido e relido. Fruto da memória afetiva e da paixão e insistência pela arte de um homem guiado pela sua curiosidade e braços abertos para o novo, o livro é uma declaração de amor ao Brasil, em suas expressões, cores e sons, tão envolvente, que é capaz de evocar a saudade de uma época até mesmo em quem não a viveu. "Noites Tropicais" é um pedaço do Brasil perfeito para ser visitado na hora e onde quer que o leitor esteja.

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"Noites Tropicais", de Nelson Motta
Versão de Bolso
480 páginas
Preço médio: R$ 16,00


Por Juliano Mendes da Hora

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