terça-feira, 19 de abril de 2011

Cidadãs de segunda classe

Quando você observa as relações entre homens e mulheres, o que você vê? Em meio à inúmeras conquistas e desafios superados, a existência social da mulher ainda carrega em si a fome por um sabor de igualdade plena, que mais parece utópica, frente aos abusos e descasos que a parcela feminina da sociedade ainda enfrenta. O livro "As Boas Mulheres da China", de Xinran Xue, propõe uma observação acerca das condições de vida daquelas que erroneamente o mundo aprendeu a chamar de "sexo frágil". Por mais que o livro tenha em seu foco as transformações vividas pela China moderna, suas páginas são um convite à reflexão sobre a injusta e ilógica ausência de respeito às mulheres de um modo geral.



Escrito entre 1989 e 1997, "As Boas Mulheres da China" é uma compilação de diversas entrevistas com mulheres de diferentes idades e condições sociais, onde a jornalista busca compreender a condição feminina na China moderna. O interessante do livro é que os relatos aqui dispostos não se encaixam na maneira formal do tipo "pergunta e resposta" ao qual estamos familiarizados. A autora narra em primeira pessoa as situações que a levaram a refletir sobre determinados aspectos do que é ser mulher na China, que por sua vez resultaram em encontros com uma vasta gama de mulheres marcadas pelo abandono, pela violência e pela opressão. O mais curioso é que esta busca pela compreensão da alma feminina e seu lugar neste mundo acabou por ajudar Xinran a conhecer mais de si mesma e superar os seus próprios episódios de discriminação e abandono.

Xinran: entendendo a alma feminina na China moderna

O cenário é a China conservadora que se encontra num processo de modernização. Ao apresentar o programa de rádio "Palavras na brisa noturna", que recebia cartas de ouvintes, em especial mulheres, com relatos dramáticos que iam de encontro à repressão imposta pela revolução cultural proletária de Mao Tse-Tung: a autora teve que desenvolver bastante jogo de cintura para conseguir repassar aquele tipo de informação sem bater de frente com governo chinês, que enxergava opositores ao regime comunista em quase tudo ao seu redor. "Ser jornalista naquela época não foi fácil", relata Xinran.

Chega a ser impressionante a repressão sexual e a rigidez cultural moldadas por um governo autoritário que nunca mostrou respeito por suas mulheres. Entre os relatos, estão o de uma menina que sofria constantes abusos do pai e encontrou no hospital um refúgio seguro: adoecendo de propósito, ela passaria mais tempo internada e longe de casa. E assim seguiu, maltratando a própria saúde até morrer de septicemia. A ideologia presente na época, por sua vez, ultrapassou os limites da política e invadiu corpos, almas e a sanidade das chinesas: um dos relatos mostra uma menina que entrou em estado permanente de catatonia após assistir à tortura de sua irmã, acusada de ser opositora do regime.

O amor e a abertura econômica também tomaram de assalto as chinesas, com relatos de jovens universitárias bastante céticas em relação aos sentimentos e muito cientes de suas armas na conquista de dinheiro, status e poder na nova sociedade que ali se instalava. A narrativa de Xinran imprime uma proximidade tal com o leitor, que por diversas vezes é possível visualizar cenas que se não um filme, renderiam um belo e forte documentário.




"As Boas Mulheres da China" retrata as diferentes faces que são peças importantes -e pouco reconhecidas- desta cultura milenar asiática, mas envolve a alma feminina de tal modo que nos põe frente a frente com o fato de que a falta de respeito para com as mulheres está disseminada em todos os lugares do mundo e pouco é feito para mudar este cenário.


AS BOAS MULHERES DA CHINA
EDITORA: Companhia das Letras |
Formato: 12,5 x 18 (versão de bolso) | 256 págs.

Preço médio
: R$ 22,00

Um comentário:

  1. Oi, Juliano. Que legal que você gostou do "As boas mulheres da China". Nós lançamos recentemente outro da Xinran, "Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida", que mostra que não só as mulheres adultas, mas também os bebês do sexo feminino sofrem muito com essa cultura. Veja a entrevista que fizemos com ela sobre o livro: http://www.youtube.com/watch?v=j6YZvqKU3DI

    Abraços,
    Diana
    http://www.blogdacompanhia.com.br

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