quinta-feira, 28 de abril de 2011

Aviso prévio

Nas relações de emprego, quando uma das partes deseja rescindir o contrato de trabalho por prazo indeterminado, deverá, antecipadamente, notificar à outra parte, através do aviso prévio. Ele tem por finalidade evitar a surpresa na ruptura do contrato de trabalho, possibilitando ao empregador o preenchimento do cargo vago e ao empregado uma nova colocação no mercado de trabalho.

É incrível como isso também pode ser aplicado nas relações fora do ambiente de trabalho. Eu acho muito mais honesto ambas as partes se avisarem da ruptura quando as coisas não estão satisfatórias num relacionamento, por exemplo.

Quando duas pessoas se conhecem e se sentem bem na companhia um do outro, é natural que ambas queiram repetir a dose de companhia. Bom é quando isso ocorre naturalmente, sem que nenhum dos dois perceba até que surja aquele estalo que nos tira do eixo e nos põe em transe ao pensar naquela pessoa. Acho que eu nunca tive uma sensação desse tipo. Aliás, quase ninguém. Geralmente, somos incubidos da tarefa de correr atrás de conquistar o alvo de nosso afeto mostrando o nosso melhor, esperando um reconhecimento e reciprocidade de sentimento.



Se há a troca natural de afinidades e o tempo que desfrutamos juntos é agradável, tão natural quanto a água lhe molhar se você nela tocar é o fato de que tais encontros serão cada vez mais frequentes. A intensidade deles pode variar pela incompatibilidade de agendas e estilos de vida, mas aquele compromisso que não é compromisso estará lá. E vocês darão um jeito de se ver novamente.

Quando falo "compromisso que não é compromisso" não estou querendo soar paradoxal. Apesar de parecer o contrário, este conceito faz muito sentido. Uma coisa é você ir ver alguém por que TEM que ir. Outra coisa é você ir ver alguém por que você QUER. Este é o compromisso que não carrega aquele peso de uma responsabilidade forçada, como bater ponto num emprego que você não gosta, mas tá lá para pagar as contas no final do mês.

O compromisso descompromissado não te assusta, não te aconselha a fazer joguinhos, não te deixa perdido, não te pede pra ler nas entrelinhas, por que tudo está claro e simples: Eu gosto de você e você gosta de mim.

Há casos em que um até que gosta de estar com o outro, mas não possui nada mais concreto para oferecer. Até que tentam cair no conto do "vamos ver no que é que dá", embora ambos saibam claramente o que é que querem. Não adianta. Quando um tá numa sintonia diferente do outro, as ondas não convergem. Senão, você poderia sintonizar duas estações de rádio na mesma frequência. Nem mesmo elas podem ocupar o mesmo lugar no tempo e espaço. A máxima do "tentar pra ver no que dá" só pode resultar em alguma coisa quando as duas partes estão dispostas.

E é justamente nesta parte que as relações humanas poderiam aprender um pouco com as trabalhistas. Você e seu chefe convivem numa relação de troca. Ele te paga pelo serviço executado. Quando gostamos de alguém, gostamos de sentir que este alguém também gosta da gente. É uma troca natural, mas ainda assim, uma troca. Quando não há esta troca, alguém sai machucado.

Quando assinamos um contrato, devemos sempre prestar atenção nas letrinhas miúdas. E primar pela honestidade. Mas cuidado para não confundir esta com a honestidade de estepe. A honestidade de estepe é aquela que serve para aliviar pesos indesejáveis na consciência de quem a utiliza. Exemplo?

"Eu não estou pronto para uma relação agora / não me curei das últimas feridas, ainda / etc, mas estou gostando de estar com você e quero te ver novamente."

O indivíduo se redime internamente de parecer desonesto para si mesmo, assim não carrega nenhuma culpa pelo fato de estar alimentando o desejo da outra parte, que continua a vê-lo pela insígnia do "vamos ver no que dá", embora o honesto de estepe não encontre nenhuma perspectiva no seu íntimo.

"Estou curtindo estar contigo, mas vamos ver no que dá..." Esta afirmação envolve uma provável reciprocidade no gostar da companhia, seguida de uma cláusula que propõe uma tentativa, que desde que o mundo é mundo possui 50% de chances de dar certo ou não. O "dar certo" é uma evolução da tentativa. É praticamente um ser vivo, que para crescer, precisa ser cuidado, alimentado, senão, morre.

Então, quando alguém realmente quer cuidar, cuida. Quando quer te ver, não responde um "pode ser" ou "vamos marcar", por mais que a vida seja feita de imprevistos e não sabermos se pode surgir alguma coisa no dia que mude os planos. Se fosse assim, ninguém ia ao médico nem nossos chefes saberiam se eles iriam depositar nosso salário no dia certo sbo alegação de que eles poderiam sofrer um infarto, serem sequestrados ou cair no poço de um elevador daqui pra lá.

"Vamos sair na sexta? -Pode ser. Pode acontecer algum imprevisto na sexta, não posso te dar certeza.

"Você vai no meu aniversário, né amigo? -Pode ser, se não acontecer alguma coisa..."

"Pode ser que a sua operação de hérnia de disco seja em Outubro. Sei lá, pode acontecer tanta coisa daqui pra lá, né?"

"Olha gente, não dou certeza, mas o salário dos últimos dois meses pode entrar este mês, tá? Nunca se sabe quando um imprevisto pode acontecer, né não?..."

Quando a gente realmente quer alguma coisa ou pessoa, a gente escolhe o tempo e o espaço e pronto. Não leva com a barriga. Pode ser uma viagem, pode ser aquele casaco que você namorou por semanas desde que a viu na vitrine pela primeira vez, pode ser uma visita a um amigo que não vê faz tempo, pode ser alguém que você queira ter dentro do seu coração. Todos sabem disso. Até mesmo aqueles que nos mantém próximos sem quando nem onde. E é justamente aí que você reconhece a rachadura na honestidade que nada mais é do que auto-indulgência e enganação a si próprios.

Quando alguém pretende ter a sua companhia, é um bom sinal. Mas quando o tempo e o espaço não acompanham esta relação, é um bom momento para mandar um aviso prévio para a outra parte, e aproveitar para reler o acordo que temos com os nossos proprios corações. Pois quando nos sentimos frustrados, quando choramos e sentimos dor, é a ele que prestamos conta.

Daí a necessidade do aviso prévio. Se no escritório, ele serve para evitar uma surpresa antiética na relação empresarial, na vida, o aviso prévio é simplesmente a hombridade e a consideração de avisar que está saindo e fechando a porta. Ao contrário de muita gente que simplesmente larga a história e deixa por isso mesmo.

Eu tenho um pacto com o sorriso. E mandei um aviso prévio para tudo aquilo que signifique o contrário.

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