quinta-feira, 31 de março de 2011

TOLERÂNCIA ZERO PARA O PRECONCEITO

Esta semana a luta de grupos representativos da sociedade brasileira ganhou mais um capítulo em sua conturbada trajetória de conflitos pelo e reconhecimento e exercício de seus direitos. O deputado federal Jair Bolsonaro (PP / RJ), conhecido por seu comportamento não condizente com a postura de um parlamentar eleito por vias democráticas (é um defensor ferrenho do regime militar) foi vítima de sua propria verborragia. Em um programa exibido na última segunda-feira (28/03) pela Rede Bandeirantes de Televisão, o Custe o que Custar (CQC), o deputado afirmou que seus filhos não corriam risco de namorar uma negra, pois "foram muito bem educados", ao responder à indagação da cantora Preta Gil, sobre como ele se comportaria se um de seus filhos tivesse um relacionamento com uma negra. O deputado afirmou ainda que o meio em que Preta foi criada e crescida é "lamentavelmente promíscuo", entre outras declarações polêmicas.

Ao tomar conhecimento das respostas do parlamentar, Preta Gil respondeu pela sua conta no Twitter, na madrugada desta terça-feira (29): “Queridos, quando gravei o quadro pro CQC, O Povo Quer Saber, a produção me pediu que fizesse uma pergunta ao Deputado Jair Bolsonoro. Fiz a pergunta e não vi a resposta dele, mas vocês estão me escrevendo e já já estará no youtube. Meu advogado já me ligou e iremos avaliar o que foi dito e, se me sentir lesada e ofendida, irei sim entrar com um processo contra ele, pelo que li, foi grave o que ele falou. Não farei somente por mim e pela minha família que foi ofendida e caluniada por ele, mas também por todos os Negros e Gays desse País”.







A reação na internet provocou um efeito dominó e resvalou com força para as demais mídias tradicionais, incentivando a discussão a respeito da intolerância e dos limites da imunidade parlamentar frente à declarações que ferem fortemente os princípios constitucionais. Jair Bolsonaro, que tanto se orgulhou de falar o que pensa, foi vítima de seu próprio ego inflado e de sua diarréia verbal.

Ricardo Brajterman, advogado de Preta Gil, anunciou à imprensa que está preparando o processo que será em 3 frentes: na área criminal, onde será feita uma representação ao Ministério Público contra o crime de intolerância racial e homofobia, na área cível, com uma ação de reparação por danos morais, e no âmbito do Congresso Nacional, com uma representação para o Conselho de Ética e o de Direitos Humanos.

Ora, teoricamente, quem está no Congresso Nacional deveria zelar pelos os princípios da dignidade humana, prevista na Constituição. Jair Bolsonaro tem uma trajetória que faz piada com o decoro exigido, contribuindo com a normatização do preconceito no país.

Entre suas inúmeras declarações, o deputado afirmou num programa de debates em rede nacional que defendia a agressão física à crianças, caso elas demonstrassem algum traço de homossexualidade, para que se "endireitassem", como mostra o vídeo abaixo:



Durante uma manifestação na câmara pela reabertura dos arquivos da era militar, ele afirmou que o grande erro da ditatura foi ter "apenas" torturado, e não, matado de uma vez. Confira:



Em outra oportunidade, durante uma discussão a respeito da maioridade penal ser aplicada aos 16 ou 18 anos, a deputada Maria do Rosário (PT - RS) foi contra a antecipação para os 16 anos, ao que Bolsonaro sugeriu à colega parlamentar que convidasse um estuprador de menor para passear de carro com sua filha, chamando a colega de "vagabunda" e empurrando-a na frente das câmeras:



Em meio ao cerco, Jair Bolsonaro e seus filhos, Flávio Bolsonaro e Carlos Bolsonaro, que também ocupam cargos políticos, tentam se defender do jeito que podem, através de suas contas em redes sociais na internet, mas acabam saindo de um preconceito para ciar em outro: Para tentar desviar das acusações de preconceito racial, que constitui crime inafiançável no Brasil, o parlamentar agora afirma que não entendeu bem a pergunta de Preta Gil, que ele pensou ter escutado "se um de seus filhos tivesse um relacionamento com um gay", em vez de um "relacionamento com uma negra". Como a homofobia não é considerada crime no Brasil, o deputado agora busca se livrar das acusações de preconceito racial para sair impune, se apoiando no preconceito contra a orientação sexual. De qualquer forma, é trocar seis por meia dúzia. Por mais que ele tente lavar as mãos, o preconceito continua impregnado em suas atitudes.

Mas as declarações públicas são apenas a cereja do bolo confietado por Bolsonaro, cujo recheio inclui votos pela urgência do último aumento de 68% no salário dos parlamentares, a defesa da volta da censura, é contra as cotas para negros no ensino superior, além de promover uma aberta campanha pela volta da ditadura, o que soa bastante paradoxal para alguém que se mantém pelo processo democrático, defender o contrário daquilo que o levou ao poder. Não podemos esquecer de que ele faz parte do Partido Progressista, que acolheu Paulo Maluf, que possui uma extensa folha corrida de diversas investigações e processos por conta de irregularidades e indícios de desvio de verba pública.

QUEM JÁ ESTÁ REAGINDO À BOLSONARO?
Diversos cidadãos se manisfestaram contra as atitudes Bolsonaro, e várias manifestações dentro e fora da internet já começam a ser articuladas. Além de Preta Gil, a deputada Manuela D'Ávila (PCdoB-RS), que preside a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, vai apresentar uma moção de repúdio ao deputado e também encaminhará uma denúncia ao Ministério Público e à Procuradoria Geral da República por prática de crime racista. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) já enviou um pedido de abertura de processo à Corregedoria da Câmara dos Deputados por quebra de decoro parlamentar.

COMO EU POSSO REAGIR À BOLSONARO?

Internautas abriram duas petições online em repúdio ao deputado. Uma delas pode ser acessada aqui: http://t.co/k9I16Im e a outra, neste endereço, clicando aqui. Estas petições visam mostrar às autoridades o que os cidadãos pensam a respeito de tais atitudes. A adesão se mostra bastante útil como termômetro de como a opinião pública pode ser levada em conta na discussão de processos como este. A página de protesto no Facebook já conta com mais de 23.000 adesões e está chamando bastante atenção dos analistas políticos e sociais. A hashtag #ForaBolsonaro ocupou lugar de destaque nos Trending Topics do Twitter durante os últimos dias.

FALE DIRETAMENTE COM ELE:

Se desejar mandar uma mensagem diretamente a ele, expressando o seu descontentamento com suas atitudes, a página do parlamentar no site da câmara dos deputados disponibiliza o e-mail de contato:
dep.jairbolsonaro@camara.gov.br

Além disso, o cidadão que se sentir ofendido com as declações e posicionamento do deputado deve ficar atento aos sites de notícias e páginas de movimentos sociais para saber da agenda de possíveis manifestações e caminhadas.

O cenário brasileiro necessita de uma reforma política urgente e o povo ainda está engatinhando na arte de escolher seus representantes. O que fica deste episódio é uma lição: somos todos tão responsáveis quanto os parlamentares pela atual situação do país. Se informar a respeito das escolhas políticas é um DEVER de quem deseja ser considerado cidadão brasileiro.

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