quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

REVOLUÇÃO SILENCIOSA

Quando se pensa que já ouvimos tudo a respeito do período da ditadura militar no Brasil, uma visita aos sebos e livrarias nos prova que ainda há muito mais a aprender sobre a luta brasileira pela democracia que não consta nos arquivos oficiais. Este é o caso de uma organização que atuou de forma discreta e eficiente, que nunca teve a atenção e o reconhecimento à altura de seus atos. Também, pudera: extremamente organizados e cautelosos, este grupo de indivíduos lutou pela descoberta do paradeiro de centenas de vítimas das ações militares latino americanas, prestando assessoria jurídica e investigando pistas de campos de concentração e centros de interrogação e tortura. Ao longo de sua atuação, diplomatas e líderes religiosos de vários países foram conquistados pela seriedade e garra destes brasileiros cuja bandeira eram os direitos humanos. Tudo isso ocorreu bem aqui debaixo dos nossos narizes, e quase nada é encontrado sobre eles.

Mas “Clamor – A Vitória de uma conspiração Brasileira”, convida o leitor para abrir outras portas ainda não exploradas de uma época que não pode ser esquecida. Este é o livro de autoria do escritor e jornalista cearense radicado em Pernambuco, Samarone Lima, resultado de um longo trabalho de pesquisa durante cinco anos. Originariamente uma tese de mestrado, a obra é um belo relato do poder da solidariedade em tempos de desrespeito aos direitos primordiais do ser humano, além de oferecer ao leitor uma visão bastante consistente do terror imposto à população pelas ditaduras que se espalhavam pela América do Sul durante as décadas de 60 e 70, até a volta gradual da democracia nos anos 80.



O mérito de Samarone está na humanização de suas reportagens. Da mesma forma que o conflito no Golfo Pérsico em 1991 foi amenizado pela guerra eletrônica transmitida pela CNN, mostrando pontos luminosos correndo de um lado a outro da tela, como num videogame, e ocultando o horror e a dor dos inocentes atingidos, os militares do Cone Sul trataram seus perseguidos como meros números sem vida, sentimento e raízes. É preciso enxergar além das estatísticas, ver que dentro de um número de 13 mil desaparecidos pode haver um filho separado brutalmente dos pais, uma mãe que não descansa enquanto não receber notícias de seu filho desaparecido, entre outras feridas que não cicatrizam. E “Clamor” consegue transitar pelos números, sem esquecer da essência que os compõem: O fator humano.

É justamente este fator humano que une três personagens que se unem para plantar uma semente que germinou e rendeu frutos por 13 anos de luta pelos direitos humanos: O advogado (e ex-deputado federal pelo PT) Luiz Eduardo Greenhalgh, a jornalista Jan Rocha e o pastor Jaime Wright, que inconformados com os relatos sobre as barbaridades praticadas nos países vizinhos, resolvem se unir a arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. Logo, conquistam o apoio do Conselho Mundial de Igrejas no combate aos abusos dos militares. Com o tempo, novos voluntários juntaram-se à causa, inclusive refugiados e sobreviventes de campos de concentração argentinos. O grupo atuava em três etapas – coletavam e documentavam os relatos, depois divulgavam os casos, e contribuíam com o suporte jurídico aos familiares dos presos políticos.

O livro tem início com uma cena digna que mais parece ter saído de um filme: Em setembro de 1976, quando os uruguaios Mario Roger Julien Cáceres e sua esposa Victoria Grisonas de Julien, pais dos pequenos Anatole e Vicky, foram mortos por militares, durante a ditadura na Argentina. As duas crianças presenciaram o assassinato de seus pais e foram seqüestradas, sumindo nos porões da ditadura enquanto seus familiares entravam em desespero. Em meio a inúmeros outros desaparecimentos, o autor inicia seu livro a partir deste caso específico, que tem desdobramentos emocionantes e inacreditáveis pelas circunstâncias que rondavam todos os envolvidos. Casos como estes motivaram o surgimento do grupo chamado Clamor, que serviu de apoio às famílias da América do Sul na busca por seus entes queridos.

Ler este relato em plena era da comunicação instantânea faz refletir sobre o quanto estamos deixando de fazer em relação a situações brutais vividas por diversas pessoas ao redor do mundo. Sem internet ou nenhuma traquitana tecnológica que nos permite hoje em dia registrar fatos em áudio e imagens tão facilmente quanto apertar um botão, os envolvidos no grupo humanitário dão uma lição de organização e iniciativa, agindo de maneira rápida e silenciosa, em conjunto com outros grupos de direitos humanos da América do Sul e da Europa. Foi só uma questão de meses até o grupo tornar-se referência neste aspecto e ser cada vez mais procurado por refugiados e seus familiares. Destaque para a tática da “teologia das Brechas”, um conceito que merece ser estudado com atenção e aplicado pela nova geração que deseja ser agente ativo das mudanças de uma nação.

Embora o Clamor esteja em primeiro plano durante a narrativa da obra, o livro também apresenta outros fatos importantes da história do Brasil, que aconteceram em decorrência da ditadura combatida pelo grupo. Estão lá o assassinato do jornalista Wladimir Herzog, a presença dos militares nos lugares de honra durante a Copa do Mundo na Argentina, refletindo uma sociedade que se deixou cegar pelo medo, a truculência de Pinochet no Chile, e o nascimento do movimento das Mães da Plaza de Mayo, em Buenos Aires.

Mas o que mais chama a atenção em todas as histórias desfiadas pelo autor é a constatação de que as diferenças culturais, étnicas e religiosas desapareciam em prol de uma razão coletiva, quando o cenário caótico fez germinar a semente da união, que pôs em um mesmo time, personalidades e comunidades díspares em nome da justiça e do direito pleno à vida. “Clamor – A Vitória de uma conspiração Brasileira” é uma leitura obrigatória atemporal e altamente inspiradora.

Atualmente fora de catálogo, o livro pode ser adquiridos facilmente pela internet, nos milhares de sebos online dispostos na Estante Virtual, a preços variados. Corra e pegue o seu exemplar!

Aproveite e visite o blog de Samarone, sempre com ótimas crônicas. Clique aqui.

Por Juliano Mendes da Hora

Nenhum comentário:

Postar um comentário