quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

FAXINA

Ela está lá. Sorrateira, ao lado da porta. Preguiçosa, se escorando e crescendo entre os cantos das paredes. Inerte, como parece ser aquela grande pedra no pé da montanha. Ela é chata, por que demanda tempo, paciência e suor. Seria mais fácil deixá-la de lado e continuar com a nossa rotina, mas não. Da mesma forma que necessitamos tomar banho, nos alimentarmos e cuidar da saúde, a faxina, na totalidade de seu significado, tem uma importância enorme no que se refere ao lado prático da vida.

Muitos não se importam tanto com este fator, por aparentemente se tratar de uma organização pura e simplesmente material, referente aos nossos objetos e como eles estão dispostos em nossos lares. Mas da mesma forma que tiramos o pó de nossos cômodos, e abrimos guarda-roupas e armários para ver o que continua em nossas vidas e o que não cabe mais em nosso percurso, os sentimentos, as crenças e as relações também necessitam a visita de um espanador e de uma funcionária chata de aeroporto que te faça lembrar da taxa por bagagem excedente, que tanto pesa e dificulta o ritmo de nossas viagens.

Por que será que na maioria das vezes temos mais facilidade em deixar para trás aquele suéter marrom que foi um hit há dois anos atrás, mas não conseguimos nos afastar, por exemplo, de namorados ciumentos, colegas invejosos e aqueles docinhos vendidos pela simpática velhinha quituteira que aparece durante os intervalos do escritório?

A explicação é simples: Nos desgarrarmos de pessoas, situações e hábitos, envolve um passeio a partes de nós que muitas vezes não gostamos de ver. Para poder levar conosco somente aquilo que nos é necessário, deixando para trás aquilo que simplesmente não nos serve mais, é preciso humildade, aceitação e honestidade consigo mesmo e com os outros. Pode ser duro admitir não se sentir confortável com uma determinada situação, mas pior é continuar a encará-la apenas pelas convenções, ou para não parecer egoísta ou difícil aos olhos dos outros.

Em primeiro lugar: Não importa o que não esteja nos fazendo bem. Pode ser algo que comemos, pode ser alguma pessoa, ou nós mesmos. Neste último caso é preciso saber que não há diferença entre o que se passa dentro e o que ocorre fora da nossa pele. Na verdade, da mesma forma que o nosso organismo apresenta sintomas quando algo está errado, o que sentimos também nos envia sinais claros que mostram o que não vai bem. E o melhor: Também mostram, ainda que sutilmente, o que se deve fazer para sair de determinada situação. Pode não ser a solução, mas pelo menos, avisa para nos afastarmos do que não nos faz bem.

Por isso, toda hora é hora de limpar a casa que guarda nossos gostos, sonhos e opiniões, da mesma forma que fazemos com o nosso quarto, o corredor, a cozinha, o banheiro, o terraço e o quintal. Mas como boas criaturas guiadas pelo simbolismo das coisas, que tal aproveitarmos o clichê da renovação dos anos para fazer uma faxina na sua casa interior?

Por exemplo, comece por aquela pessoa que demonstrou algo e agiu de forma contrária, fazendo gastar o seu tempo precioso, que poderia ser utilizado para estar em companhia de pessoas mais interessantes, honestas e por que não, bonitas. Ninguém merece ter o seu tempo roubado pela imaturidade alheia.

Ou então o seu lado profissional está gritando por novas experiências e o seu atual emprego não te oferece muitas perspectivas de crescimento. Antes que a inércia da acomodação lhe contagie, é melhor já ir estudando novos caminhos e oportunidades. Acredite, da mesma forma que um órgão que funciona mal compromete o organismo como um todo, um simples fator de nossa vida pode influenciar no andamento de nossa rotina por completo. Caso contrário, seríamos máquinas e um chefe psicótico que se utiliza do assédio moral, que mexe com nossas emoções, não afetaria o nosso desempenho profissional. Ledo engano. Não dá pra separar. Por isso que o assédio existe e se mostra tão eficiente nas mãos de pessoas desequilibradas.

Exemplos e incentivos para uma limpeza que possa nos impulsionar adiante não são exclusivos das relações humanas. Observe só o mar: Ele é uma constante faxina na areia, levando o que está perdido na superfície e preenchendo os espaços com uma água diferente da que molhou as pedras minutos atrás. Dar ouvidos às feridas que avisam o que não está sendo bom é um eficiente, porém trabalhoso exercício de auto-descoberta, o que ajuda muito na construção do que somos.

Desapegar-se de situações ou pessoas não é nada demais. É o mesmo que ir por um determinado caminho ao voltar para casa, mais seguro do que o outro que você teve a oportunidade de conhecer. É como dar chance ao Sushi pela terceira vez e perceber que você não gosta do sabor de jeito nenhum. É saber que você prefere morango a chocolate. É não dar murro em ponta de faca. É não querer comer jiló nunca mais na sua vida. Você sabe que o sabor do jiló não é culpa dele, ele é assim e pronto. Só não serve pra você. Ou que nem aquela tentativa de relacionamento com alguém sem bússola emocional que cultivou mentira e colheu a decepção alheia. Se coisas ruins aconteceram neste nível íntimo, o que esperar de uma tentativa de amizade com espécimes deste tipo?

Querendo ou não, este exercício é algo que não pode ser feito por ninguém mais a não ser nós mesmos. É a sua vida e o seu direito de estar onde e com quem lhe faz bem. Os fatos desagradáveis podem ser superados e até mesmo perdoados, mas daí para conviver com a fonte disso tudo são outros quinhentos. É o mesmo que convidarmos uma vítima sobrevivente de tubarão para nadar no mar do Recife em período de procriação destes animais.

A boa notícia é que tudo passa. Machucados cicatrizam, o expediente chega ao seu final, feriados vêm e vão, assim como fases boas e ruins. Aproveite o que passou para ficar esperto e fazer um caminho mais bonito pela frente. Desapegue. Largue. Deixe para trás, mas aprenda com o que viveu e ouse receber o novo. Assim como nosso guarda-roupa é renovado de tempos em tempos, é preciso estar de casa limpa, perfumada e renovada para receber os novos verões, primaveras, outonos e invernos. Com tudo que temos direito.

Feliz ano e vida nova.

Por Juliano Mendes da Hora

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