sábado, 18 de dezembro de 2010

QUEM TE OUVIU, QUEM TE OUVE

É natural da vida que tudo passe por uma evolução. Não importa em que termos isso aconteça. metamorfoses físicas, sociais e tecnológicas andam lado a lado. E a cultura não fica atrás neste processo, sendo uma extensão natural das experiências acumuladas e da vontade de experimentar o novo. Ah, o "novo". Palavra que atrai, além de também causar estranhamento, mas sem nunca se deixar passar desapercebido.

É com este sentimento de surpresa em relação ao novo que o álbum "Progress", da banda britânica Take That, foi recebido no seu lançamento dia 15 de Novembro no Reino Unido, e que aterrisa esta semana nas lojas brasileiras.

"Mas, quem diabos é Take That, e o que eles estão fazendo de diferente?" - Alguns podem perguntar. Resumo da ópera:

Take That é uma banda inglesa que iniciou suas atividades no início dos anos noventa, e que serviu de modelo para muitas boybands que viriam a nascer como pragas de gafanhotos na música pop internacional. Os próprios integrantes do Take That foram considerados a resposta do velho continente à recém ressucitada New Kids on The Block, banda norte-americana que seguia à risca a seguinte fórmula de vocalistas agradáveis aos olhos femininos, com letras que não saíam do esquema corações-partidos-vou-te-reconquistar.



Anos 90 - estética kitsch e batidas dance


A diferença entre o Take That e seus colegas americanos estava na maneira como suas imagens foram administradas por seus empresários. Enquanto o New Kids foram formatados para atender uma demanda por rótulos fabricados para satisfazer o modelo de bom-moço e conquistador segundo os padrões heterosexistas de uma sociedade conservadora que se apóia na questão da moral como a América, os britânicos foram moldados para serem simples objetos com uma tensão sexual bastante explorada e eles não escondiam isso. Por isso, grande parte de seus clipes e sessões de fotos de divulgação pareciam ultrapassar quaisquer rótulos, o que não apenas fisgou a parcela feminina, como também acabou agradando ao público gay. As performances nos palcos também mostravam que eles seguiam a cartilha da provocação em nome do show business. Madonna já havia testado e aprovado este modelo com louvor: a música era apenas um dos elementos que compunham o pacote da banda.



"Pray", um dos maiores sucessos da banda em 1993

Mas aí, todos aqueles clichês que estamos cansados de observar nas bandas ocorreu: guerra de egos, incompatibilidade criativa, empresários castradores, super exposição ao trabalho, problemas com bebidas, drogas, e por fim, o tiro de misericórdia: Um de seus integrantes sai e a banda não dura mais que um ano sem ele. Gary Barlow, Howard Donald, Mark Owen e Jason Orange formavam a Take That, com três álbums nos anos noventa, que encontrou o seu fim com a saída de Robbie Williams justamente no momento em que a banda preparava-se para alçar vôos maiores: a música "Back for Good" tornou-se o seu maior sucesso mundial, e atraiu a atenção do desejado mercado norte-americano, com a canção subindo nas paradas e o clipe sendo exibido na MTV.


Back for Good

A partir disso, o resto é história. Cada um dos membros tentou uma carreira solo, com Robbie Williams largando na frente, se firmando como um dos grandes nomes do pop britânico no resto dos anos noventa e na primeira década dos anos 2000. Gary Barlow chegou a fazer algum barulho com seu primeiro disco solo, produzido por ninguém menos que Clive Davis, mentor de Whitney Houston, com o primeiro single sendo uma canção escrita por Madonna! "Open Road" foi lançado em vários países, inclusive nos Estados Unidos sob o manto da gravadora Arista, pertecente ao falecido grupo BMG. Aqui no Brasil, ele emplacou uma música numa novela das oito. Talvez você não o conheça, mas com certeza lembra dessa música:




So help me girl

Mas seja por uma questão de carisma, de boas letras, pelas parcerias corretas, pelo timing musical para a época, Robbie Williams emplacou hits atrás de hits, sendo "Angels" a sua marca registrada:





Só que o que ninguém contava era que Mark Owen, que ocupava o posto de ativador dos instintos maternais das fãs, iria lançar um disco em 1996 que coincidência ou não, seria uma amostra das mudanças pelas quais o Take That iria passar, caso resolvessem retomar a carreira. Seu single "Clementine", do álbum "Green Man", se parece muito com o som atual dos rapazes. Vale à pena escutar:

Mark Owen em "Clementine"


Bem, nove anos se passaram, e durante este tempo, os quatro remanescentes do grupo eram constantemente comparados ao sucesso estrondoso que Robbie Williams havia conquistado. Três anos após o fim da banda, Gary se encontrou sem contrato com gravadoras, incapaz de conseguir convencer produtores para agendá-lo mesmo em pequenas turnês. Isso o deixou tão desolado, que ele resolveu deixar a Inglaterra, mudando para Los Angeles, Estados Unidos. Com o tempo, passou para os bastidores da música, escrevendo letras e produzindo discos.

Mark Owen também perdeu o seu contrato com a BMG e só voltaria a ser visto pelo público britânico em 2002, ao participar de uma edição do reality show Big Brother onde figuravam apenas celebridades. Vencedor do programa com 77% dos votos, ele conseguiu um contrato com a Universal Music, que lançou em 2003 o disco "In Your Own Time". O carro-chefe do CD era a canção Four Minute Warning, alcançando a quinta posição nas paradas de sucesso por oito semanas. Infelizmente, o êxito se deu apenas por esta música e o álbum não vendeu bem, e mais uma vez, Mark perde um contrato com uma grande gravadora.



"Four Minute Warning", de Mark Owen


Howard Donald experimentou uma fase depressiva que quase o levou ao suicídio pelo fim da banda. Seu primeiro single solo, "Speak Without Words", chegou a ser veiculado apenas uma vez em um programa de rádio, mas nunca foi lançado comercialmente.

Jason Orange tentou a carreira de ator, participando de alguns filmes e séries, mas foi uma fase que não lhe rendeu bons frutos. Então ele desistiu da vida artística e voltou a estudar, tendo formado-se em Ciências Biológicas e História.

Enquanto isso, o sucesso de Robbie só aumentava, o que fez com que os últimos dez anos fossem uma espécie de comparação tortuosa entre aqueles que supostamente fracassaram e aquele, que um dia se retirou da banda por diferenças irreconciliáveis, considerado o problemático e bad boy da turma.

Em 2005, um documentário da emissora ITV resolveu investigar o que realmente teria acontecido nos bastidores da banda, atiçando a imaginação de muitos fãs que se sentiam órfãos com o fim do grupo. Seis milhões de espectadores acompanharam o que estava por trás da trajetória dos três discos, e 10 milhões de unidades vendidas, fora as turnês e produtos promocionais. Entrevistando cada integrante, o programa mostrou por onde os garotos haviam andado, o que estiveram fazendo, e os provocou acerca de alguma aproximação para uma possível reunião. E eis que em 25 de Novembro daquele ano, os quatro remanescentes Gary, Jason, Howard e Mark anunciaram que iriam retornar em 2006 com um novo disco e uma turnê. 600 mil ingressos foram vendidos em cinco minutos, um recorde para a história dos concertos britânicos.

Banda reunida em 2006

Em 2006, eles retornaram com "Beautiful World", um disco que surpreendeu pelo amadurecimento do som dos rapazes, conquistou sucesso e respeito não apenas de público, mas também da crítica. A imagem de boyband como conhecemos ficou no passado. Agora os integrantes tinham total controle criativo e escreviam suas próprias letras. Os anos que passaram lhes permitiram que desenvolvessem seus potenciais em termos artísticos, chegando a dominar seus intrumentos favoritos, coisa que não acontecia no universo das boydands. Apenas Gary Barlow tocava seu piano desde os velhos tempos.



"Patience", 1º single de "Beautiful World"

Após "Beautiful World", veio "The Circus", que conquistou o posto de disco mais vendido rapidamente em toda a história da Inglaterra, seguido de seu subsequente DVD, da turnê The Circus Live, também campeão de vendagens. O carro-chefe do disco, o single "Greatest Day" mostrou que a batida dance da era pop do Take That havia ficado realmente para trás. Piano, arranjos de cordas, baixo e guitarras estavam harmoniosamente trabalhando com as novas idéias dos integrantes da banda, que agora poderiam finalmente abandonar o prefixo "boy" e ficar apenas com o "band":



"Greatest Day"

O mundo deu voltas e a banda estava mais uma vez retomando uma carreira de sucesso, enquanto a de Robbie Williams já não era mais a mesma coisa. Durante os anos em que os quatro galgavam uma nova fase, mais madura e mais respeitada, Williams viu seus álbums caírem em número de vendas, comparados aos seus trabalhos anteriores. Um deles, o "Rudebox", praticamente sobrou nas lojas e teve suas cópias retiradas pela gravadora e enviadas até a China para serem esmagadas e utilizadas para fazer asfalto a partir de materiais recicláveis.

Ainda assim, muitos fãs se perguntavam se algum dia viriam Williams reunido com seus outrora companheiros. Isso foi um prato cheio para os tablóides ingleses, que passaram todos esses anos especulando a respeito do assunto. Boatos surgiam e logo eram desmentidos, até que em 16 de Julho de 2010, Williams, Barlow, Orange, Donald e Owen confirmaram os boatos de que andavam se encontrando e desenvolvendo um novo material juntos. Era o início do disco "Progress".

A banda se reuniu secretamente em Junho e Julho deste ano para escrever e gravar novas músicas, após meses de encontros, desabafos e cartas na mesa. O maior entrave se encontrava entre Robbie Williams e Gary Barlow, conhecidos rivais desde a época pop da banda. Diferenças resolvidas, o melhor de dois mundos trabalhou para trazer aos fãs uma terceira fase da banda. Agora com Robbie novamente, eles iriam combinar elementos trabalhados durante os discos sem Williams, com toda a experiência e referências que Robbie acumulou durante os últimos anos.



A banda se reúne com sua formação completa pela primeira vez em 15 anos.



PROGRESS, O DISCO

Ninguém saberia o que esperar realmente de um novo trabalho, desta vez acompanhado daquele considerado por muitos como o responsável pela interrupção da trajetória do Take That. Alguns fãs que estavam satisfeitos com o material da banda enquanto quarteto chegaram a ficar apreensivos com fato de Williams estar se reaproximando, receosos de que este retorno pudesse pôr todo o trabalho de retorno da banda por água abaixo. Outros viram a notícia como um sonho realizado. Mas quem esperava ou tinha medo de um revival do som que eles um dia fizeram foi surpreendido.

Progress foi produzido por ninguém menos que Stuart Price, responsável pelas músicas de "Confessions on the Dancefloor", de Madonna, além de possuir um currículo respeitável, que inclui nomes como New Order, Kylie Minogue, Scissor Sisters, The Killers, Pet Shop Boys e Gwen Stefani, entre outros.

Progress é definitivamente, o disco mais incomum e inesperado da banda. Esqueça as baladas e a pegada leve dos últimos discos. As canções aqui apresentam elementos mais pesados com as guitarras, lembrando um rock volátil, daqueles entoados em shows de estádios, combinados com toques eletrônicos influenciado pela estética techno, resultando num efeito epiléptico musical. E isso foi um elogio. Em algumas faixas, é possível reconhecer as referências dos anos oitenta e seus sintetizadores, alguns vocais que bebem da mesma fonte do David Bowie.

Este é um disco que engana o ouvinte a partir da primeira faixa, "The Flood", de cara uma canção que se ajustaria amigável aos ouvidos e familiar ao estilo cultivado nos últimos dois discos. É definitivamente uma canção radiofônica que gruda no ouvido logo de primeira. Mas aí, vem a segunda faixa, "SOS", com sua pegada electro, que assim como o resto, faz o ouvinte se perguntar se isso é o Take That que ele um dia conheceu. As letras embarcam mais em questões existenciais e navegam até mesmo em terrenos políticos, como em "Kidz", um recado aos atuais detentores do poder que não dão ouvidos à nova geração. Seria uma ótima canção de protesto se a atual geração fosse politizada como a letra sugere.



"The Flood"

Pode-se dizer que o retorno de Robbie Williams deu um fôlego ainda mais profundo à banda. Sua participação está mais em evidência nos vocais, assim como nas letras. Mark Owen é o segundo maior destaque, com canções que casam perfeitamente com o seu tom incomum de voz. Seu vocal é ligeiramente anasalado ao cantar em notas mais intimistas, mas torna-se estridente quando necessita alcançar notas mais altas, como se estivesse mais gritando que cantando. Definitivamente, um perfil que não combina com o pop de outrora. Na década de noventa, Mark e seus companheiros serviam mais de backing vocals para Gary Barlow, que possuía uma voz macia e educada para o rádio. Agora, parece que finalmente encontraram um estilo que mais se adequa às suas cordas vocais. Longe dos padrões homogêneos da música pop, Mark Owen, Jason Orange e Howard Donald, outrora apagados na banda, sentem-se à vontade e soam muito mais autênticos e honestos do que nunca.

Gary Barlow, que sempre carregou consigo um estigma de crooner e líder da banda, está mais humilde, dividindo os flashes, as composições e o microfone com os seus colegas. Aliás, este é o disco do Take That onde menos se escuta Gary Barlow.

Howard Donald está cada vez mais à vontade com suas próprias composições e suas incursões ao microfone, e Jason Orange surpreende mostrando um talento vocal que estava escondido e deixa os fãs querendo mais dele no próximo CD. De qualquer forma, foi um movimento arriscado e corajoso, rumo à uma mudança drástica e inesperada num time que já estava ganhando.

Após o lançamento do single "The Flood", as expectativas em torno do álbum só aumentaram. E eis que em 15 de Novembro deste ano, "Progress" foi lançado em todas as lojas do Reino Unido, e no dia seguinte já contabilizava 235 mil cópias vendidas. 700 mil em cerca de duas semanas. Até agora, um mês após o lançamento, "Progress" está com pouco mais de 1 milhão de cópias vendidas. Um recorde em tempos de pirataria e crise na indústria fonográfica.

Para quem já conhecia o trabalho anterior da banda, se prepare para músicas completamente diferentes das que você se acostumou. Quem esperava o teor romântico das letras de Gary Barlow pode precisar escutar o disco mais de uma vez até se acostumar com a nova direção adotada. E para quem não conhecia ou nunca deu atenção ao trabalho dos rapazes, esta é uma ótima oportunidade de dar uma chance ao som da banda. 'Progress", acima de tudo é um disco corajoso e ousado, que não passa desapercebido. Clique abaixo para ouvir um preview com todas as faixas do disco, para ter uma idéia de como o Take That está soando agora.





SORTEIO

Se você ficou curioso para conhecer a banda, ou se você gostaria de um aperitivo antes de provar "Progress", vamos sortear "The Circus", o último disco do Take That antes do retorno de Robbie Williams! Tá a fim de participar? Então, siga as instruções:



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Por Juliano Mendes da Hora

5 comentários:

  1. Amei A Matéria, Otimo Resumão :DDD Take That Realmente É Uma Das Poucas Bandas Pop's De Qualidade Relevante Que Conseguiram Sobreviver . Graças A Deus O Robbie Williams Voltou! Eu Nem Tava Ligada Sobre Esse Novo Album, Na Real Faz Um Tempinho Que Não Escuto Eles Direito, Essa Preview Do Progress Me Impressionou Bastante! Quando Penso Em Take That Lembro Logo De 'Patience' Ou 'Back For Good', Canções Pra Vc Cantar Alto Com Aquela Dor De Cotovelo HEIAHEIAEIHOA Mas Esse Novo Album Ta Até Dançante! E Até Ouvi Uma Influencia De Um Funk Oldschool Americano Em Uma Das Músicas, Nossa :O

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  2. Take That 4ever! This is progress! hahahhaha

    Parabéns pela matéria Julianoooo uuuhhhuuuu

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  3. Parabéns Juliano...Eu quero ganhar o cd...apesar de eu saber dessa historia do có e salteado...kkk bjs

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  4. WOWWW!!!!!!!!! Fantástica Matéria!!!!!!!!!!! Amei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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