sexta-feira, 8 de outubro de 2010

BRASIL, PRA QUE TE QUERO?

É impossível passar incólume por uma eleição num país de dimensões continentais como o Brasil, tão repleto de particularidades que são um ótimo estudo de caso para os antropólogos de plantão. Misto de esperançosos com indignados, a nação brasileira segue em frente com muito pouco ou quase nada modificado na sua estrutura patriarcal e conservadora.

A ascensão de uma candidata negra e evangélica trouxe à tona discussões a respeito dos estereótipos que carregamos e que são tão difíceis de largar, como um chiclete que gruda na roupa que mais gostamos de vestir. Os brasileiros estão inseridos numa goma grudenta embaixo da poltrona, da mesma forma que aprenderam a varrer os problemas estruturais para debaixo do tapete. De que forma poderia se explicar a redução de uma discussão ampla, que deveria abraçar políticas públicas, reformas tributárias e jurídicas, educação, saúde e emprego, para um perrengue em torno do aborto e da união civil homossexual?

Não que os dois assuntos não sejam importantes, mas ao relativizar o poder em torno de dois temas que ninguém se propõe a desmistificar, é transformar o diálogo em fofoca de beatas.

Se o Brasil não existisse, ele teria sido inventado por Dias Gomes ou Jorge Amado, tamanhas são as situações caricatas que beiram ao surreal. A começar pela fofoca de beata: O Brasil nunca foi um estado laico. E o grande número de conservadores presentes nas bancadas de todo o país faz com que discussões que deveriam ocupar a seara dos direitos humanos e da saúde sejam reduzidos ao temor dogmático das representações religiosas, não importando quais sejam as igrejas.

O segundo turno destas eleições de 2010, para muitos eleitores brasileiros, mostra-se decepcionante: Dilma Roussef, capitaneada pelo atual governo do PT e José Serra, da oposição, são vistos em conversas com líderes religiosos, assumindo posições que antes não mostravam, ou diferiam de suas óticas iniciais. Isto tem trazido à tona as mais diversas reações, daquelas que explodem quando já se está farto de tantas notícias ruins. Infelizmente, a ala conservadora é religiosa, embora nem todos os religiosos sejam conservadores. Dilma e Serra estão atrás do voto daqueles que sobraram, independente de suas crenças.

E infelizmente, sobraram muitos conservadores. E o assédio em torno deles é compreensível: Pessoas conservadoras são aquelas que são mais manipuladas. E nem é preciso se esforçar tanto para constatar, basta fazer uma visita às milhares de igrejas que pipocam a cada minuto no Brasil.

Quem aí já viu algum progressista ser membro ativo de alguma igreja, nos mesmos moldes de um fiel?

-Bingo.

Infelizmente, quem olha para a frente não consegue ser representado neste país. Tendo a consciência disto, você votaria em quem só toca em certos temas, mas nunca discute, engrossando a ignorância em torno dos mesmos por mais quatro anos?

Eu, enquanto cidadão, só tenho uma opinião a respeito destas duas pessoas que estão aí a pedir meu voto: Covardes. Não têm coragem de assumir posições.

E a candidata evangélica? Marina Silva foi posta para fora da disputa por que se propôs a discutir temas que os outros fizeram questão de passar longe, e que agora, apenas tratam de forma rasa, como garantia de que não os abordarão em seus governos em troca de maioria de cadeiras nas engrenagens do poder.

Mas o lado bom de tudo isto foi poder aprender a identificar as diferenças entre religiosos e seus líderes. Os primeiros servem de massa de manobra dos segundos, esses sim, em sua grande parte retrógrada e que não se interessam em promover mudanças, pelo simples fato de que elas os tirariam do poder. É por culpa destes tipos que os ataques e farpas se generalizam e crescem como uma bola de neve.

No meio disto tudo, estou eu e mais um monte de gente que assiste conformada a mais uma reprise da mesmiçe em termos de desrespeito: nosso voto e confiança em certos candidatos são moeda de troca por alianças tão enferrujadas quanto o moinho velho de um engenho decadente.

Por Juliano Mendes da Hora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário