segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A CRUZ NA BEIRA DE ESTRADA

Quando fui a primeira vez na Paraíba e cruzei de bugre a estrada que vai de João Pessoa a Campina Grande a fim de passar o maravilhoso São João, vi umas cruzes na beira da estrada, a partir da terceira, a curiosidade me fez perguntar: o que seria aquilo? ele prontamente me respondeu: “são as Cruzes de Estrada, pequenas homenagens dos familiares ou amigos e representam as pessoas que naquele local morreram em acidentes ou assassinadas”.

São pequenas cruzes muitas vezes em madeira crua ou pintada, sustentadas por um amontoado de pedras, ou são presas a um bloco de concreto, outras vezes ficam dentro de um oratório de cimento ou taipa. Algumas com flores outras abandonadas no meio do mato seco. Elas são preparadas pelos familiares do morto ou erigidas por algum devoto que alcançou uma graça solicitada aos céus, aos pés da cruz e em pagamento ele constrói uma mais merecedora.
As inscrições são feitas em pedaços de madeira de forma triangular no centro do cruzamento ou nos braços da cruz: “Aqui foi assassinado barbaramente o cristão...”

Muitas vezes as cruzes são recheadas de mistérios e assombrações que a tornam num boca a boca um lugar sagrado que pode operar milagres. Quem passa por elas, em respeito, tira o chapéu, se benze ou faz uma pequena oração.

Confesso que fiquei encantado com a diversidade de formas e tamanhos, interrompendo a monotonia da estrada. pra mim era uma novidade o importante sentido desta rica manifestação popular.

Fiquei pensando que cada pequeno templo daquele, carrega uma história de dor e de perda, eternizado ali, disponibilizado a quem quiser prestar sua homenagem, aquela pequena cruz, por vezes abandonada no meio do mato, nos mostra, a cada Km, que devemos olhar cada vez mais pra o ser humano que morre por um assassinato ou uma desatenção deste outro ser humano, que conduz uma máquina de ferro assassina sem responsabilidade, sem respeito ao outro. Os milhares de motoristas que por ali passam, lembram a cada pequena cruz daqueles que ali encerraram de forma cruel as suas vidas. Esta é a intenção destas pequenas manifestações de fé popular.

Fico imaginando se aqui em nossas grandes metrópoles do Sudeste tivéssemos a mesma tradição, nossas estradas seriam cercadas de túmulos coloridos mito juntos, enfeitados de flores, como uma sinalização de transito celeste. Talvez nossa consciência se tornasse um pouco mais “humana”.

Confira também a matéria de Gilvaldar de Campos Monteiro, "Santa cruz de beira de estrada", publicada no Correio de Maceió, em 19 de julho de 1969, e disponibilizada online pela Jangada Brasil:

..."Pois com ela há de casar antes de ser degolado, pagando a ela e a Deus pelo teu crime e pecado — não me entrem na Igreja nem noutro lugar sagrado... mas na beira duma estrada, me pondo na cabeceira a sela do meu cavalo. Quem passar lá de jornada reze por mim desgraçado"...

Confira a matéria completa aqui.

Por Jefferson Duarte
Foto de Maria Hsu

Nenhum comentário:

Postar um comentário