terça-feira, 22 de junho de 2010

O CIRCO MIDIÁTICO BRASILEIRO E SUAS RELAÇÕES COM O PODER

Como surgiu a mídia do jeito que a conhecemos hoje? Por que uma mesma notícia ocupa as manchetes impressas e televisivas por longos períodos? Como e quando algo pode ser distorcido e direcionado para atender à demanda do circo eletrônico na sua política de pão e controle remoto? Até onde o jornalismo praticado no Brasil pode se considerar isento e livre de amarras políticas? Perguntas que em algum momento passam pela cabeça dos espectadores, mas que sofrem tentativas de seqüestro pelos conglomerados de comunicação em parceria com jogos de influência e acordos praticados com grupos dominantes instalados na engrenagem que move a máquina do estado.

Os caminhos trilhados pela mídia ao influenciar e delimitar a trajetória da sociedade são o foco de dois livros escritos pelos estudiosos da comunicação Venício Lima e Alfredo Vizeu. Ambos são jornalistas e professores que observam atentamente as mudanças pelas quais passam a comunicação brasileira, imprimindo uma forte análise crítica nas relações entre os veículos de comunicação, o povo e o estado.


Venício Lima: a mídia e o poder exercem um processo de retroalimentação

A leitura de ambas as obras é por si só complementar. Ao observar os trabalhos desenvolvidos pelos dois autores, encontramos uma análise a partir do micro universo das redações dos telejornais trazida por Vizeu em “Decidindo o que é notícia”, cujo foco Lima consegue aumentar e discorrer sobre os bastidores da mídia brasileira e suas conseqüências à níveis nacionais em “Mídia: Crise Política e Poder no Brasil”, onde encontramos a árvore genealógica de todas as raízes de negociações e jogos de influências praticados uma ajuda mútua de sobrevivência entre quem detém o poder e quem veicula e observa esse poder.

Nesta relação de ajuda mútua entre poderes (se considerarmos a mídia como o quarto poder), muitos jornalistas se mantêm tão concentrados em sua rotina e em sua corrida pela descoberta de verdades, que acabam se esquecendo de olhar de forma crítica a maneira como o seu trabalho está sendo realizado. Esta idéia é partilhada pelos dois autores. Podemos dizer que a prática do Gatekeeping, exemplificada por Vizeu como a escolha dos fatos que devem ser trazidos à tona pelos media é um reflexo da auto-imagem que cerceia o imaginário da maioria esmagadora dos jornalistas: Eles seriam os mandatários da missão de fiscalizar, denunciar, e trazer a verdade ao interesse público, como mostra Lima em seu livro.

Mas de onde vem essa relação tão íntima entre a mídia e grupos ocupantes de cargos na esfera pública? Ao longo do século 19, a indústria do jornalismo adaptou-se às necessidades comerciais, deixando a visão romântica de um veículo ocupado com a missão de simplesmente informar para se transformar numa empresa. E como toda empresa precisa crescer para se manter funcionando, os jornais passaram a vender espaços para anúncios.

A divulgação de produtos e serviços em veículos que poderiam atingir um grande número de pessoas era uma idéia muito atraente a empresários, o que acabou gerando uma relação de interdependência entre a comunicação e o capitalismo. Quanto mais pessoas fossem atingidas pelo anúncio, mais o jornal poderia cobrar mais pelo espaço. Por isso, a expansão era algo imprescindível para gerar receita.

O crescimento da alfabetização e a diminuição dos impostos, aliados ao aperfeiçoamento da produção e da distribuição fez com que os jornais alcançassem a tão sonhada expansão. O livro de Vizeu mostra esta relação do jornalismo com o capitalismo, e que esta relação vai levar às barganhas políticas em trocas de concessões para o funcionamento das emissoras de rádio e televisão brasileiras ilustradas no livro de Venício Lima. De que forma?

Quando o jornalismo cresce a tal ponto de fazer com que os seus executores criem em volta de si uma atmosfera de caçadores da verdade, é fato que interesses começarão a surgir em torno de uma instituição que desenvolve a capacidade de manejar o poder simbólico, ato de intervir no curso de acontecimentos e influenciar as ações e crenças dos outros.

Este poder simbólico nada mais é do que a ferramenta principal do exercício do poder político, que precisa dessa legitimidade para continuar se sustentando. Com o surgimento de leis que legitimam o funcionamento dos complexos midiáticos no Brasil, estabelece-se assim uma troca de favores entre esses complexos e camada detentora de poder no país. É como se ambos se tornassem reféns um do outro. Por exemplo, o crescimento da televisão e a sua conseqüente transformação na maior fonte de informação sobre o mundo político e social dos países, importante na formação da identidade social a torna prisioneira de si mesma. Quantas emissoras atualmente são a favor do cumprimento devido da lei das concessões, que deveria ter a participação da consulta popular na sua prática?

Falando na televisão, o livro de Vizeu apresenta exemplos claros tomando a Rede Globo de Televisão: Durante anos, a população brasileira assiste a quarenta minutos de telejornal no horário nobre, consumindo os fatos que a mídia julga mais importante, de forma condensada, o que nos leva às omissões, distorções e saliências explanados no livro de Venicio Lima: Alguém lembra do caso da Escola Base em São Paulo, um dos exemplos mais explícitos e nefastos de enquadramento da notícia, apoiada na presunção de culpa, praticada pela imprensa? Acusados de molestar sexualmente alunos da escola infantil, os proprietários sofreram danos morais e materiais irreparáveis, para só depois descobrir que eles não possuíam culpa alguma. Claro que a inocência dos mesmos não teve o mesmo destaque que as especulações unânimes disseminadas na mídia.

Diante de tamanho poder, grupos políticos se utilizam de meios para adentrar neste segmento, tomando para si concessões para se utilizar das mesmas armas: Ao assumir o Ministério das Comunicações no primeiro período democrático pós-regime militar, Antônio Carlos Magalhães iniciou a conhecida “farra”, que alimentou um grande número de deputados e outros espécimes da fauna política com nada menos que 1.200 concessões. Com isso, eles passaram a fazer parte de afiliações a grandes grupos que não poderiam crescer sozinhos num país de dimensões continentais como o Brasil. Por isso, podemos encontrar como afiliadas da Rede Globo as Organizações Arnon de Mello em Alagoas, e a TV Bahia em Salvador, pertencente ao grupo de ACM.

Tendo este cenário bastante claro, vemos exemplos de interferências diretas na política brasileira, desde o regime militar, passando pela volta do regime democrático e a escolha do primeiro presidente eleito pelo povo. Tudo isto mostra como a empresa soube se adaptar às mudanças de poder com o passar dos anos. Para Alfredo Vizeu, dificilmente a Globo deixará de funcionar como “instituição de poder”, segundo palavras do próprio autor.


Alfredo Vizeu: a TV forma identidades

E esta é só a ponta de um iceberg bem maior. De acordo com Vizeu, a televisão ocupa um lugar de destaque neste fim de século por que ela se mescla com o conceito de indústria cultural: ela uma participação decisiva na formação de identidades e no crescimento econômico dos países, cotidianizando os fatos numa forma fragmentada que influencia a literatura, o rádio e o jornal.

Este cenário sombrio que se forma durante a leitura das duas obras se dissipa ao perceber que há um caminho a ser trilhado pela mudança através da educação e da conscientização da população, de acordo com Venicio Lima: em seu livro, ele cita a internet e suas ferramentas como alternativas para a democratização da mídia no Brasil. Mas afirma: Enquanto o acesso a internet continuar concentrado “geograficamente e nos níveis atuais no Brasil”- essa esperança continuará a ser apenas uma possibilidade para o futuro. Venicio Lima e Alfredo Vizeu nos mostram os caminhos trilhados pela comunicação brasileira e suas obras são decididamente sementes que uma vez experimentadas, germinam rapidamente. A urgência por mudanças no Brasil pede que obras deste calibre sejam cada vez mais semeadas neste latifúndio político e econômico.

O livro "Decidindo o que é notícia", de Alfredo Vizeu, encontra-se disponível para download grátis NA ÍNTEGRA! Se você quer saber mais dos bastidores da mídia brasileira, clique na capa abaixo e boa leitura!





Por Juliano Mendes da Hora
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