domingo, 2 de maio de 2010

O CANTO DA SEREIA DE CABO VERDE

De tempos em tempos surge uma voz de outras terras que nos faz perguntar por que diacho não prestamos mais atenção aos nossos vizinhos de além-mar? A cabo-verdiana Mayra Andrade é uma legítima representante desta seara que por apresentar um repertório que não figura na nossa fast-food musical pasteurizada das FMs, e que por não obter a devida veiculação, não tem seus discos lançados por aqui. Mas a Sony Music Brasil corrige este erro gravíssimo e lança por aqui "Stória, Stória...", segundo disco da cantora detentora de vários prêmios internacionais, entre eles o BBC Radio 3 World Music em 2006, por melhor artista revelação, na sua estréia com o álbum "Navega", ainda não editado em terras brasileiras.

Produzido pelo brasileiro Alê Siqueira, que tem no currículo estrelas como Marisa Monte, o álbum foi gravado na França, no Brasil e em Cuba, terra natal de Mayra, que cresceu entre o Senegal, Angola, Alemanha e Cabo Verde, por lá reunindo as suas raízes com a bagagem adquirida em suas andanças. Terminou por escolher Paris para viver, justamente pela presença de várias culturas existentes na capital francesa. “Falo francês desde os seis anos de idade. É a minha terceira língua.” O resultado desta mistura é uma ode à expressão humana na forma da arte musical, independente de gênero ou ritmo. Mistura é algo ao qual a cantora já está acostumada. Prova disso são suas inúmeras parcerias conquistadas em uma carreira que ainda pode ser considerada recente: Charles Aznavour, Chico Buarque, Lenine, Mário Lúcio, Paulo Flores, Teófilo Chantre e Mariana Aydar.

O repertório de "Stória, Stória..." Tem como base a morna, a coladeira e a bandeira, que são ritmos típicos de Cabo Verde. Os convidados presentes no disco trazem influências de seus países, resultando numa mistura de elementos da música brasileira e até mesmo a cubana com um toque de Jazz. Aqui você encontra o brasileiro Jacques Morelembaum, o pianista cubano Roberto Fonseca, a acordeonista portuguesa Celina da Piedade, entre outros. O disco apresenta 3 faixas compostas por Mayra, e as restantes, em parceria com a nova geração de compositores de Cabo Verde.

Para quem não está familiarizado, Cabo Verde é um país africano composto de dez ilhas no Oceano Atlântico, a 640 Km da costa do Senegal. Descobertas pelos portugueses em Maio de 1460, sem nenhum indício de ocupação humana anterior, elas começaram a ser colonizadas em 1462, sendo a ilha de Santiago a escolhida como marco inicial da colonização. Por conta de sua posição estratégica, as ilhas de Cabo Verde sempre foram peças-chave na trajetória entre a Europa, a África e o Brasil. Durante muitos anos foi um entreposto comercial de onde se negociavam homens (durante período da escravatura), plantas e animais. Com a presença de povos africanos de diversas etnias e línguas, o conjunto de ilhas se constituiu numa comunidade bastante heterogênea, cujo caldeirão cultural se completou com a presença de portugueses.

Imaginem então como deve ter sido para esses povos interagirem. É lógico que indivíduos, por mais diferentes que sejam entre si, ao estarem juntos num mesmo lugar, mais cedo ou mais tarde, irão interagir entre si. E o grau mais comum de comunicação humana, após os gestos, qual é? Um ponto para quem respondeu que é a verbal. No caso de Cabo Verde, não existia uma língua comum que permitisse essa interação. Mas, como a comunicação entre os homens é algo intrínseco à sua natureza, De nada adiantaria os colonizadores se aproveitarem deste fator como uma de suas formas de dominação. Inevitavelmente uma língua seria inventada, quisessem eles ou não. E assim surgiu o crioulo.

Nascido da necessidade de sobrevivência, à época de seu nascimento, o crioulo era mais como um jargão do que uma língua propriamente dita. Ela utilizava-se de adaptações de palavras da língua portuguesa, que eram pronunciadas ao modo da línguas dos escravos, que logo eram compartilhadas. Ou seja, dentro de um cenário étnico bastante diverso, o crioulo foi a cola que permitiu unir ainda mais aqueles povos, sendo um ponto em comum entre eles. O curioso é que o Crioulo só era utilizado em comunicação com os colonizadores ou com outros africanos que falassem outras línguas. Entre si, a coisa era diferente: Uma determinada comunidade utilizava a sua língua de origem.

O fato é que o tempo foi passando, e Cabo Verde continuou essa mistura de etnias, o que permitiu a permanência desta língua tão curiosa e bonita. Ter a chance de ler algumas passagens em crioulo traz a mesma sensação de aprender a ler novamente. É impossível não ficar fascinado com a riqueza das palavras. É como se cada um de nós as redescobrisse, sentindo nelas a essência de uma história viva. Atualmente, a língua oficial do país é o português, usada nas escolas, na administração pública, na imprensa e nas publicações. Mas a língua do povo, é o crioulo cabo-verdiano, que possui diferenciações, uma para cada ilha do continente. Esta é a causa do alumbramento que ela causa em parceria com a poesia. Escutar Mayra Andrade e acompanhar as letras de suas canções no encarte do CD é poder viajar até Cabo Verde e assistir à toda uma história, sentir a brisa e os cheiros de lá, é conseguir imaginar as cenas locais, o sol e as cores impregnadas em cada sentimento trazido à tona pela cantora.

A língua portuguesa também tem o seu espaço no disco de Mayra. Segundo as palavras da própria, o seu disco reflete a essência de Cabo Verde: “É um cruzamento musical, um estilo ‘ilegítimo’… Em Cabo Verde, as pessoas são naturalmente mestiças”, diz. “Se olharmos bem para a música cabo-verdiana, vemos uma forte ligação com a música brasileira.” E esta ligação é claramente ilustrada na faixa "Morena Menina Linda", cujo arranjo foi produzido pelo brasileiro Jacques Morelembaum:




O sol e as cores de Cabo Verde estão presentes em músicas alegres e leves como "Tchapu Na Bandera", "Nha Damáxa", "Badiu Si", e "Turbulénsa", canção de ritmo contagiante onde ela pede que a brisa do mar guie o seu barco para transformar a turbulência da vida num balanço melódico e poético, com a bênção de Deus e da Virgem Maria. O disco também abre espaço para contemplações como a delicada "Palavra", uma homenagem à filha primária das línguas que unem os povos, que no caso de Cabo Verde, foi a responsável pela criação de toda uma nação. Para quem aprecia canções românticas, "Morena Menina Linda" e "Lembránsa", última faixa do disco, trazem o amor na sua forma mais plena, se assemelhando na visão com a qual ele é retratado pelo fado português, onde não se sabe se o amor é prazer ou dor, ou se é uma mistura dos dois. O fato é que estas duas canções são declarações singulares ao sentimento mais intenso vivido pelo homem.

Segundo Mayra, “Algumas das músicas têm algo de introspectivo." Mas o ouvinte não deve enganar-se com a palavra escolhida pela autora para classificar o clima existente no disco: A introspecção aqui é um quadro colorido com diversas matizes que convidam à uma reflexão e uma certa calma ao observar a vida. São imagens extremamente vivas e coloridas. Caso de "Odjus Fichádu", onde o violino, o piano e o cavaquinho se encontram com a percussão e o arranjo de cordas, trazendo poesia para o fechar dos olhos, que traz quem está longe para perto, durante o aperto da saudade.

A realidade social e política também está presente, por meio da faixa Juana, escrita no começo dos anos 90, de autoria do cabo-verdiano Kaka Barboza, onde Mayra desfia de uma só vez as condições precárias das mulheres cabo-verdianas, a queda do muro de Berlim e a incerteza que cerca as pessoas a respeito do futuro. “Konsiensa” é de longe, a faixa mais introspectiva, orientada pelo ritmo batuku, onde a cantora abre as portas de seu interior: “Peço à sua consciência para não ficar indiferente diante de tudo o que se passa à minha volta no mundo”, diz a letra. Esta canção tem a presença de um coro de crianças brasileiras, cantando o sonho de uma sociedade multicultural na qual todas as cores se unem.

"Stória, Stória..." é um disco de mar e areia com perfume das folhas molhadas pelas chuvas do verão. Ele revela uma aquarela rica e convidativa da bela música cabo-verdiana. E que temos o privilégio de poder escutar aqui no Brasil. 



Por Juliano Mendes da Hora
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