terça-feira, 25 de maio de 2010

A MESMA VOZ CANSADA VOLTA PRA VOCÊ


Soa meio que reflexivo, digerido e melancólico o primeiro single do CD Manuscrito, novo trabalho solo da Sandy. O CD inteiro aliás é bem acústico, calmo e embalado suavemente por mecanismos pré fabricados da MPB, embora Sandy consiga se reinventar em seu “Filho”, como ela descreve, e eu acredito que sim.

O clipe de "Pés Cansados" é um show de imagens, gravado em Buenos Aires, e soa como uma Sandy solo! Propositalmente é claro. A mulher dos pés cansados da letra é uma sofredora do destino, que depois de rodar e rodar, encontra o seu rumo, desistindo de seguir com seu cansaço e voltando aos braços daquele que um dia desistiu. Entra em cena o lado criativo de autora que não conhecíamos.




O trabalho reflete a maturidade de uma mulher. Sandy deixa a menina de lado que só volta a ser revivida por nós em sua marcante voz da década de 90, que volta e meia nos causa nostalgia e que provavelmente ainda vai levar tempo pra ser esquecida, ou ao menos acalmada dentro de nós. Vê-la como Sandy sem Júnior aliás ainda é estranho.



Se é pra si mesma como diz, Manuscrito é um sucesso, se é pra o público que cresceu ouvindo seus hits ao lado do irmão Júnior, Manuscrito também dá certo. Geralmente os consumidores vorazes desse álbum serão seus próprios fãs, mesmo. E fã como sabemos é incondicional. Sandy trás a memória nesse disco, mesmo que despropositalmente nomes da MPB como forte influência. Na canção “Tão Igual” por exemplo, os embalos que ela produz com sua voz fazem um elo entre sua própia musicalidade e a de Maria Rita. Em sua canção “Esconderijo” trás à tona a simplicidade de canções não super produzidas, com voz rouca e de tamanho reduzido, como pontes pra as outras que ainda hão de vir nas próximas faixas do disco. É aquele tipo de canção arte mesmo, feita pra ouvir e não pra se cantar.

Mas a maturidade profissional se reflete mesmo no nível intelectual e sonoro de suas canções de autoria própria, “Dias Iguais” com Nerina Pallot, por exemplo alcança o ápice dessa nova fase dela no rumo final do CD e deixa claro a influência Pop Down Under dos Ingleses.

Como ela mesma diz, Manuscrito é o resultado de coisas que ela gosta de ouvir e cantar. Reflete uma Sandy que não precisa mais provar seu talento a ninguém e que agora quer apenas viver fazendo o que gosta. Assim como ela, Manuscrito é reservado e meio esncondidinho do Foco.

É cru, simples, encantador e enjoativo ( Não que as canções, de melhor qualidade inclusive sejam cansativas, mas, a própria voz da Sandy soa como doce demais aos ouvidos, num perfeito enjôo de quem cresceu ouvindo-a.) é bem produzido, resultado de talento e coragem de se lançar cantando MPB POP em dias onde tantos outros se perdem ao ritmo enlouquecido e furioso de Gaga.

Sandy tem um bom CD, um talento óbvio, uma boa banda, e uma vida tranqüila e centrada pra se dedicar a ser artista e acalentar com seu trabalho o público assíduo que a segue determinadamente, no mais Manuscrito peca por um erro que coitada, nem é dela própria, peca pelo excesso de nostalgia que sua voz causa, mesmo subconscientemente.

Quem sabe nas batidas eletrônicas de BIONIC, a gente esqueça esse mel todo.


Por Iann Salis Liht
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