segunda-feira, 24 de maio de 2010

HERÓIS CONTRA O PRECONCEITO

Semana passada foi comemorado o dia mundial contra a homofobia. A data escolhida, 17 de Maio, caiu numa segunda-feira, e para ilustrar os avanços na luta contra todos os tipos de discriminação, os quadrinhos têm se mostrado um eficiente espelho das mudanças, ainda que tímidas, pelas quais passa a sociedade.

Senão, vejamos: Além de combater invasões alienígenas, cientistas malucos que querem dominar o mundo e ladrões de banco, alguns super-heróis também estão engajados na luta contra outro tipo de crime, mais velado, mas nem por isso menos grave: o preconceito. Além de entreter, as histórias em quadrinhos também têm uma função social e, por isso mesmo, são usadas para passar uma mensagem de conscientização na sociedade de que ninguém é melhor ou pior do que qualquer pessoa e que todos somos iguais, independente da raça, cor da pele, sexo, religião, condição física, orientação sexual ou condição social.

Não cabe aqui uma discussão sobre as motivações que levam uma pessoa a se achar superior porque é diferente em alguns aspectos. Deixemos isso para os psicólogos. O que sabemos é que a Declaração Universal dos Direitos Humanos garante que todo ser humano é igual em dignidade e não deve sofrer qualquer tipo de distinção por condições aquém da sua vontade.


A Mulher-Maravilha foi, talvez, a primeira heroina a levantar a bandeira contra a discriminação sexual. Na época, as mulheres nos quadrinhos eram relegadas a papel secundário, na maioria das vezes colocadas em perigo para que o herói, esse sim, viril, intrépido e corajoso, pudesse cumprir seu papel de salvador. Em 1941, o psicólogo e inventor William Moulton Marston criou a Mulher-Maravilha, cuja estreia se deu em All-Star Comics 8 e a personagem se tronou um grande sucesso, mas também levantou algumas polêmicas.

Primeiramente, por conta do seu traje sumário, considerado escandaloso e algo impensável para o conservadorismo dos anos 40. Depois, por causa das conotações sexuais contidas nas suas histórias. É que Marston era a favor da liberação sexual – ele próprio vivia com duas mulheres – e recheava as histórias em quadrinhos com sutis mensagens sexuais. O próprio fato dela usar um laço para amarrar os homens já demonstra uma tendência bondage. Por fim, e o principal motivo, porque ela inverteu o conceito vigente nas HQs, colocando o homem em posição inferior.

A mensagem da mulher que não se submete aos homens – até bate neles – e resolve sozinha seus problemas fez da Mulher-Maravilha um símbolo feminista na luta para provar que o “sexo frágil” de frágil não tem nada e é tão ou mais capaz que qualquer homem. Além disso, a personagem quebrou outro tabu: deu às meninas uma representante no mundo super-heroico em pé de igualdade com qualquer herói masculino, acabando com a teoria que super-heróis era “coisa de meninos”. Mais do que isso, a personagem serviu de inspiração para outras heroinas e mudou o conceito das próprias personagens que já existiam. A mudança na personalidade de Lois Lane, namorada do Superman, que era medíocre e submissa, para uma repórter forte e decidida é um exemplo.



Outra revolução nos quadrinhos foi a criação do herói Pantera Negra, em 1966. O Pantera é o líder da nação africana Wakanda, um país fictício criado pela Marvel, tecnologicamente mais avançado que qualquer nação do mundo. Criado como coadjuvante das histórias do Quarteto Fantástico, o Pantera Negra possui os poderes do felino que lhe empresta o nome, com sentidos aguçados, agilidade e sagacidade.

Foi o primeiro super-herói negro criado pela Marvel num período em que os Estados Unidos viviam um movimento cultural que visava acabar com o preconceito racial e valorizar a beleza negra. O novo herói chamou a atenção de tal modo que, dois anos depois de sua criação, ingressou nos Vingadores e ganhou mais notoriedade, abrindo caminho para outros heróis da mesma raça, como o Falcão, parceiro do Capitão América e Luke Cage, herói de aluguel.



Este último foi o primeiro herói negro a ter um título próprio, usado pela editora para passar uma forte mensagem antirracismo. O herói teve uma infância pobre no Harlem (EUA), bairro pobre e separatista do país, foi condenado por um crime que não cometeu e sofreu nas mãos de um carcereiro racista até que adquiriu superforça e pele dura como aço num acidente provocado para matá-lo.

Fez muito sucesso nos anos 70, mas ficou apagado nas décadas seguintes. Atualmente, ganhou mais popularidade ao ingressar nos Novos Vingadores e cogita-se até fazer um filme dele no cinema. Na mesma época, a DC Comics criou um herói negro para a Tropa dos Lanternas Verdes, uma vez que o herói vivia uma fase de “aventuras sociais”, onde discutia temas como racismo, violência, drogas e ecologia. No entanto, o Lanterna Verde John Stewart só veio a se tornar conhecido do grande público recentemente, com a estreia do desenho animado da Liga da Justiça.


Hoje em dia, ainda que de forma bastante sutil, há um crescimento no número de personagens gays. É que a sociedade ainda não vê com bons olhos essa questão. Por isso, os quadrinhos já vem apresentando, há algum tempo, personagens gays, a fim de abrir os olhos da população que a condição sexual independe de escolha e está presente em todos os círculos sociais. O primeiro a “sair do armário” foi o herói Estrela Polar, do grupo canadense Tropa Alfa. Na época, a revelação foi tão polêmica que o personagem caiu no ostracismo e levou todo o grupo consigo. Apesar disso, serviu como modelo para que outros personagens também assumissem sua condição sexual. Na DC, temos o Flautista, inimigo do Flash, a capitã de polícia Maggie Sawyer, coadjuvante das aventuras do Superman, a policial Renée Montoya e a Batwoman, estas últimas amantes declaradas. Na Marvel, além de Estrela Polar, o Colossus do Universo Ultimate também é gay (conotação interessante, já que ele é duplamente discriminado por também ser mutante) e o caubói Rawhide Kid, conhecido no Brasil como Billy Blue, que brinca com o fetiche existente pela pessoa do caubói, geralmente másculo. O caçador de demônios Constantine, personagem da linha Vertigo, também declarou ser bissexual.



Hoje em dia, há uma abertura maior para discutir sobre esse tema e os novos grupos de super-heróis que estão surgindo, geralmente possuem um personagem homossexual em suas fileiras. É o caso dos Jovens Vingadores, que tem Hulkling e Wiccano (respectivamente, a versão jovem do Hulk e do Thor) como namorados e dos Fugitivos, outro grupo adolescente, cuja personagem Lucy in the Sky tem um romance com uma skrull. O interessante é que, como os skrulls podem assumir qualquer forma, a personagem ora é um rapaz, ora uma moça. Lucy, no entanto, já declarou que prefere a versão feminina.


É verdade que muito ainda precisa ser feito para acabar com todas as formas de preconceito, se é que um dia vão acabar. Apesar disso, os quadrinhos não deixam de cumprir esse papel conscientizador e mostram que a intolerância, sob qualquer uma de suas formas, deve ser combatida. Muito mais do que divertir e nos levar ao mundo da fantasia, os super-heróis estão aí, para nos manter com o pé na realidade, mostrando que somos todos seres humanos e temos a mesma dignidade perante Deus e os homens.


Por Eduardo Marchiori
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