domingo, 18 de abril de 2010

PLÍNIO E SUA PAIXÃO


A princípio, vamos deixar claro que o que pretendo discutir aqui é cultura. Produzir um texto sobre algo diretamente ligado a religião é sempre um grande desafio, são margens oferecidas de bandeja para os mais diferentes tipos de interpretação. Mas, como o meu objetivo é que o texto seja, antes de tudo, um diálogo, deixo aberto o espaço para todas as interpretações e interações que se construam por consequência.

Independente da religião, ou da postura de vida adotada por qualquer pessoa, é inegável a tradição do feriado da semana santa e do espetáculo da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém, Pernambuco. Como pernambucana, filha da cidade de Caruaru, distante cerca de 30 minutos do município de Fazenda Nova, onde está situado o teatro de Nova Jerusalém, cresci visitando a região, muito benquista pelos caruaruenses para lazer e turismo.




A região tem muitas belas atrações. Fazenda Nova é desenhada por rochas, matéria-prima de uma série de esculturas que constituem uma das principais atrações da cidade: o Parque das Esculturas. Logo na entrada, na BR- 104, a recepção é feita pela escultura de pedra do cangaceiro Lampião. Mais adiante, diversas obras esculpidas em pedra cercadas por mandacarus e outras vegetações típicas do agreste como a algaroba e o aveloz. Tudo isso sob um céu exuberantemente azul e recheado de nuvens.

Foi nesse cenário que o gaúcho Plínio Pacheco, nos anos 50, começou a por em prática suas idéias de construção de uma réplica da cidade de Jerusalém. Esta idéia surgiu porque Plínio queria aprimorar pequenas apresentações da Paixão de Cristo que já aconteciam nas ruas da ainda Vila de Fazenda Nova, vinculada ao município de Brejo da Madre de Deus.




As apresentações começaram a acontecer após a semana santa de 1951, quando Sebastiana e Epaminondas Mendonça pensaram que seria divertido colocar a família para encenar a paixão de Cristo. Foi assim que Epaminondas decidiu patrocinar as apresentações adaptando uma idéia já posta em prática na Europa, mais precisamente na Alemanha.

Plínio Pacheco era jornalista e sua obsessão era construir a tal réplica da cidade de Jerusalém. E ele conseguiu. Aliás, alcançou seu objetivo de maneira primorosa. Foram anos construindo o que hoje é um complexo de nove palcos distribuídos em uma área de 100 mil m², cercada por uma muralha de 3.500 m e 70 torres. Nova Jerusalém corresponde a um terço da Jerusalém original. É um trabalho grandioso, rico em pesquisa e detalhes. Não precisa ser religioso e nem cristão para reconhecer a qualidade da obra.

E Plínio não parou por aí. Além de idealizar e construir o que hoje é considerado o maior teatro ao ar livre do mundo, o jornalista também foi diretor do espetáculo e autor dos textos que retratam os últimos momentos da vida de Jesus Cristo.





Nos textos, o autor conseguiu sintetizar momentos e diálogos históricos que marcaram uma época. Em diálogos como o que acontece entre os sacerdotes após o momento de fúria de Jesus no templo, é possível perceber toda a trama política que movia os interesses daquela época. Uma pena que atualmente as pessoas prefiram abandonar a cena para seguir para o cenário seguinte e ver de perto mais um ator famoso. Fica aqui a minha crítica às pessoas que perdem a oportunidade de assistir a um bom texto encenado por atores responsáveis e comprometidos.








Outro texto importante é o monólogo de Judas. O personagem é assediado pelo diabo, minutos antes de cometer suicídio. Inicialmente como alterego de Judas o diabo revela o estado de consciência do personagem, transtornado por ter traído o amigo Jesus. Ao convidar Judas para a morte o diabo imputa-lhe a responsabilidade sobre o suicídio esquivando-se de toda e qualquer responsabilidade pelo ato.



As atuações também merecem destaque. Não aquelas postas em prática por nomes reconhecidos nacionalmente – se bem que o Cristo representado este ano pelo ator Eriberto Leão emocionou bastante ao público e também a mim, que não me emocionava há anos. Há muitos atores da região, alguns familiares de Plínio Pacheco e de Epaminondas Mendonça. Estes sim, cerca de 550 atores e figurantes, com anos de experiência dão aulas de interpretação. São posturas de cena e modulações de voz muito diferenciadas que valem a pena serem vistas. Fica a dica.

Enfim, para encurtar a conversa – eu seria capaz de passar horas escrevendo sobre isso – gostaria de deixar marcada a importância cultural do local, do espetáculo e de suas pessoas tanto em caráter nacional quanto internacional. É importante posicionar-se a fim de conhecer uma produção tão antiga que reflete um esforço conjunto de pessoas simples que conseguiram concretizar um trabalho de dimensões grandiosas e conservá-lo ao longo dos anos. Cristão ou não, religioso ou cético, qualquer pessoa ampliará um pouco mais sua visão de mundo após conhecer a iniciativa.

Em 2010 o espetáculo completou 40 anos de encenação no teatro idealizado e construído por Plínio Pacheco. Atualmente cada espetáculo tem um público médio de 8.000 pessoas.

Plínio Pacheco morreu em 2002, com todo o seu projeto concluído e reconhecido pelo público.

Texto e fotos: Karla Vidal

2 de abril de 2010, diretamente de Caruaru.

Nenhum comentário:

Postar um comentário