segunda-feira, 1 de março de 2010

TEM ARTE NO CEMITÉRIO










Visitar uma cidade ou se aventurar pelos nossos próprios arredores é um exercício de desprendimento e sensibilidade. Desprendimento dos caminhos seguros que nos levam à caminhos já conhecidos, e sensibilidade para deixar que o inesperado se mostre à nós em toda a sua plenitude. Se você gosta de esculturas e afins, já devem ter passado pela sua cabeça os lugares mais típicos onde elas possam ser encontradas, menos um. Já visitou um cemitério em busca de arte?

Pois os sepulcros dos cemitérios nos guardam mais surpresas do que possamos imaginar. Mais do que obras de arte, eles são uma síntese do contexto histórico vivido pelos que ali estão descansando. Nos mármores, granitos e outros materiais ali presentes passeia toda uma interpretação da morte, que revela rastros de uma época que se foi, contando uma história, ainda que discreta, da trajetória não somente daquela pessoa que se foi, mas de todo um conjunto de símbolos e significados que permeiam a existência humana.

Se o homem já deu sua impressão sobre quase tudo que o rodeia através da arte, é natural que o ele também expressasse sua visão a respeito da morte, trazendo a arte para esta que é a única certeza que temos em vida.

A origem deste tipo de expressão encontra-se na passagem do período Paleolítico para o Neolítico, onde as transformações no modo de vida trouxeram a divisão da sociedade em classes, a divisão do trabalho e a diferenciação profissional, a produção primária e a manufatura, o comércio especializado e o artesanato e também o trabalho masculino e feminino.


Se antes o homem preocupava-se apenas em sobreviver, agora ele começa a conviver com as mudanças do tempo, os períodos de sol e os chuvosos, os raios, as pragas, e tantos outros fatores que o fazem crer num poder maior que rege a sua vida e a dos outros, trazendo o animismo e seus símbolos de adoração, dividindo o seu mundo entre a realidade e o além, o mundo real e o mundo dos espíritos.

A partir desse período, ele passa a retratar a realidade de forma diferente da expressada no paleolítico, que se resumia à reproduções das caças tão presentes em seu cotidiano. No neolítico, o homem se expressa de maneira mais abstrata, com signos e símbolos embalados por pensamento e interpretação. Desta forma, figuras materiais adquirem contornos de idéias e conceitos. O que basicamente acontece com as esculturas nos cemitérios. A partir daí, encontramos a diferenciação entre arte sacra e a arte secular. A primeira mostrava a relação do homem com o desconhecido além dos limites da vida, enquanto a segunda era puramente decorativa.

Para nós da Cajumanga, é uma honra apresentar as fotos e o texto do nosso intrépido colaborador Jefferson Duarte, um apaixonado pela cidade de São Paulo que foi dar uma volta no cemitério da Consolação, descobrindo um dos poucos lugares desta metrópole onde o tempo nos dá uma folga, parando para o sabor da contemplação. Boa contemplação!



O Cemitério da Consolação é a mais antiga necrópole em funcionamento na cidade de São Paulo e uma das principais referências brasileiras no campo da arte tumular. Localiza-se no distrito da Consolação, na região central da capital paulista. Primeiro cemitério público da cidade, foi inaugurado em 1858 com o nome de Cemitério Municipal.







Com a prosperidade advinda da cafeicultura e o surgimento de uma expressiva burguesia em São Paulo, o Cemitério da Consolação passou a abrigar obras de arte produzidas por escultores de renome, para ornamentar os jazigos de personalidades importantes na história do Brasil, como Campos Sales, Washington Luís, marquesa de Santos e Monteiro Lobato.

Entre os artistas que produziram obras para o cemitério encontram-se Rodolfo Bernardelli, Victor Brecheret, Bruno Giorgi e Celso Antônio de Menezes. Mantém visitas guiadas, por meio do projeto “Arte Tumular”. Sempre fui um apaixonado pela arte estatuária dos cemitérios. São Paulo é campeão nesta arte que encanta a cada viela dobrada, a cada rua.

Uma selva esculpida em pedra e bronze com belissimas arvores ao redor... o vento fresco... o silencio... são perfeitos para encontrar belos angulos.

(Clique nas fotos para aumentá-las!)


























Por Juliano Mendes da Hora (texto de introdução)
Por Jefferson Duarte (texto e fotos Cemitério da Consolação)


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