sábado, 6 de fevereiro de 2010

TODAS EM UMA SÓ














Bebel Gilberto tem mel nas cordas vocais. E também tem o sol, as cores, os cheiros e os sons do Brasil, belamente ilustrado em suas melodias. Muitos a descrevem como gênero de si mesma, sendo bastante recorrente alguém dizer "outro dia escutei um som meio Bebel Gilberto." E como seria este som? Recheado de referências brasileiras, jazzísticas e com um elegante toque eletrônico, é o tipo de música que segundo seus fãs, ultrapassa o simples ato de escutar. Bebel é para se sentir.

Nascida em Nova York, nos Estados Unidos, ela também possui nacionalidade brasileira, com direito ao DNA da bossa nova e da MPB correndo em suas veias: seu pai, João Gilberto, é considerado o pai da Bossa Nova. Sua mãe, Miúcha, é dona de uma voz e carreira das mais singulares, tendo realizado memoráveis parcerias com estrelas do quilate de Tom Jobim, Vinícius, Toquinho e Stan Getz, só para citar alguns. Para quem acha que a árvore genealógica musical para por aqui, só mais um pequeno detalhe: Bebel é sobrinha de Chico Buarque.


Miúcha,  João Gilberto e Chico Buarque

Um dos ícones da renovação da MPB, Bebel Gilberto se sentiu mordida pelo bichinho da música desde muito cedo, tendo participado de musicais infantis. Quer um exemplo? Procure alguém que possua um vinil do especial "Pirlimpimpim" da Rede Globo, exibido na década de 80, e lá você irá encontrá-la em meio a canções que prestam homenagens à obra infantil de Monteiro Lobato. Alguns anos mais tarde, na mesma década, uma Bebel mais crescidinha nos presenteia com uma letra que se tornaria um clássico: "Preciso dizer que te amo", parceria com Cazuza e Dé, que na época despontavam no Barão Vermelho.



"Lindo Balão Azul", de especial "Pirlimpimpim", apresentando Bebel como Narizinho

Em 1991, mudou-se para Nova York e por lá foi ficando. Ela retornaria triunfalmente nove anos mais tarde: No ano de 2000, "Tanto Tempo", seu primeiro disco solo, surpreendeu os ouvidos do planeta, fazendo com que muita gente se perguntasse: "Uau, quem é essa menina tão legal?" Considerado um divisor de águas da nova música popular brasileira, "Tanto Tempo" trazia uma mistura delicada e elegante de bossa nova, samba, sons acústicos e eletrônicos que se encaixavam perfeitamente e hipnotizavam quem os escutasse. Com este trabalho, Bebel arrebatou milhões de admiradores, entre eles, muitas personalidades, como o ex-presidente Bill Clinton, que na época declarou ser este um de seus discos favoritos. 



Capa de "Tanto Tempo", 2000.

"Tanto Tempo" possui ao mesmo tempo histórias belas e trágicas na sua concepção: as felizes parcerias e a criatividade corriam soltas nos bastidores, resultando num disco feliz e acolhedor como um abraço. Infelizmente, faltando pouco para a finalização da produção do disco, seu produtor Mitar Subotic, iugoslavo radicado no Brasil, que também era conhecido como Suba, não resistiu a um incêndio em seu estúdio, restando a Bebel finalizar os últimos detalhes de sua obra. O empenho e a coragem de seguir em frente deram resultado: "Tanto Tempo" se tornou o disco brasileiro mais bem-sucedido internacionalmente na história de nossa música.

  Bebel entre Gustavo Ceratti e o fotógrafo Mario Testino

Eis que nove anos se passam, e Bebel consolida sua carreira, tornando-se aquela espécie de amiga que vem nos visitar a cada álbum lançado, e cuja presença nos causa saudade antecipada e ansiedade pela próxima visita. Tem sido assim com seus fãs, que sentem um misto de sentimentos a cada vez que Bebel lança um novo álbum e turnê: Eles ficam felizes por reencontrá-la, mas ávidos e ansiosos por novidades no período entre um disco e outro. E agora, ela nos presenteia com "All in One", sua nova coleção de canções, lançada no Brasil durante os últimos meses de 2009.















Em "All in One", Bebel se mostra mais solar e feliz do que nunca. Fruto do bom momento na vida profisisonal e pessoal, as músicas de seu novo disco mostram uma mulher cada vez mais livre e apaixonada, ou como diriam seus fãs, "ampla e com vista para o mar". Pois foi justamente este estado de espírito que influenciou a artista na composição de suas novas letras: A música que empresta o título ao disco é uma declaração de amor escrita no primeiro dia do ano de 2009, durante as férias que passou na Jamaica. Aliás, foi neste país que boa parte de "All in One" foi gravado, tendo alternado sessões no Brasil e nos Estados Unidos.

O som que flui neste lançamento é mais orgânico e menos eletrônico, mas não por isso menos Bebel Gilberto. Logo de cara, ela convida o ouvinte a embarcar na leveza de sua "Canção de amor", e ao longo do álbum, nos guia em um passeio onde a simplicidade das coisas é o que realmente importa: Por exemplo, onde você poderá encontrar uma oração mais espontânea e alegre do que a letra de "Nossa Senhora", 4ª faixa do disco? Ou uma levada com percussão e violão tão malemolentes quanto "Ela (On my Way)"? São pequenos detalhes que fazem destas canções um reflexo do que o Brasil é feito: uma fusão do sagrado com o profano, do lírico com o satírico, da paixão com o amor.



Seis das 12 canções presentes no disco foram compostas pela artista, que mostra uma segurança e maturidade invejáveis ao lidar com as nuances musicais adquiridas ao longo dos anos. O álbum também é recheado com parcerias e quatro regravações: "Bim Bom", clássico do cancioneiro de seu pai, "Chica Chica Boom Chic", eternizada na voz de Carmem Miranda, "Sun is Shining", de Bob Marley, que recebeu trechos em português, e "The Real Thing", de Stevie Wonder, aqui produzida por Mark Ronson, cujo currículo inclui produções para artistas como Amy Whinehouse, Macy Gray e Lily Allen, entre outros. Mas as parcerias não param por aí. No time de Bebel também jogam John King, Carlinhos Brown, Mario Caldato, Didi Gutman e Daniel Jobim. Em seu novo disco, Bebel mostra ter desenvolvido uma antropofagia musical, fruto das parcerias construídas ao longo dos anos, sendo literalmente, All in One. (Todos em um.)

A seguir, batemos um papinho com a Bebel que carinhosamente nos recebeu pelo Twitter e nos concedeu uma entrevista por e-mail:

Revista Cajumanga:  Em primeiro lugar, parabéns pelo lançamento! Vamos lá: Muitos dizem que "Tanto Tempo" era mais eletrônico, enquanto "Bebel Gilberto", de 2004, ia mais pro orgânico, já o "Momento", de 2007, foi visto como uma perfeita fusão dos dois primeiros. "All in One" foi bem aceito pela crítica e pelos fãs, e mesmo possuindo o seu toque inconfundível, muitos disseram que o acharam diferente dos demais. O que é muito bom, pois o mercado musical valoriza o artista que traga novidades a cada álbum. Você se considera uma artista que busca se reinventar? Você se cobra neste aspecto, ou isto ocorre naturalmente?

Bebel Gilberto:  Isso acontece naturalmente. É como um dia apos o outro, acordando e vendo a mesma vida com uma perspectiva natural, com mais sabedoria, experiência e gostos mais definidos...

Revista Cajumanga: Como foi o processo de criação de "All in One"?

Bebel Gilberto: Foi ótimo, muitos amigos e pessoas muito queridas pra mim estavam envolvidas no processo todo!

Revista Cajumanga: A releitura de canções consagradas geralmente causa uma certa expectativa tanto no artista, quanto nos fãs. Como você se sentiu ao gravar "Bim Bom", de autoria de seu pai?

Bebel Gilberto:  Ah, me senti muito feliz, foi uma homenagem a ele, e nada melhor do que fazer com meu
amigo e talentosissimo Daniel Jobim.

Revista Cajumanga: Durante um bom tempo, você viveu fora do Brasil e teve a oportunidade de entrar em contato com vários músicos de diversas nacionalidades. Você se considera mais brasileira ou cidadã do mundo?

Bebel Gilberto: Brasileira de coração e cidadã do mundo, também!

Revista Cajumanga: "All in One" é seu disco de estréia na consagrada gravadora Verve, que foi casa de grandes estrelas como Charlie Parker, Duke Ellington, Stan Getz e divas como Ella Fitzgerald, Nina Simone e Sarah Vaughan. Atualmente estão por lá a Diana Krall, a Natalie Cole e a Melody Gardot, que são suas colegas de gravadora. Qualquer conhecedor de jazz e apreciador desses artistas sentiria um friozinho na barriga só de estar neste selo lendário. Como se deu a sua entrada lá e como você se sentiu fazendo parte deste casting?

Bebel Gilberto: Muito honrada, eles já fizeram muito pela música boa do mundo e é um prazer estar ao lado deles.

Revista Cajumanga: Ah! Já rolou algum plano de dueto, algum convite, algum trabalho junto com as colegas?

Bebel Gilberto:  Ainda não, não foi nem pensado nisso.  :)

Revista Cajumanga: Você é uma cantora que teve a oportunidade de conhecer o mercado fonográfico num molde bastante diferente do que existe hoje. O modelo que antes funcionava parece não caber em meio à pirataria e crise financeira que se instalou nos últimos anos. Qual o futuro que você vê para o artista e para a produção e consumo de música?

Bebel Gilberto: Acho que tá todo mundo tentando descobrir uma fórmula que funcione, mas com certeza será melhor para todos nós, afinal, a democracia da música permite que todos consigam chegar mais longe...


Revista Cajumanga: Em relação à internet: Muito se fala a respeito, e todos estão nela, mas poucos tiram proveito dos inúmeros recursos que ela oferece. Você é uma das poucas que soube aproveitar esta ferramenta, vide o contato estreito que você tem com seus fãs no Twitter. Como você a vê?

Bebel Gilberto: Ah, eu uso desde sempre, internet é uma ferramenta incrível, cada dia mais possibilidades e mais longe se vai...

Revista Cajumanga: O assunto agora é turnê! Quais as novidades para seus novos shows? Quais são as cidades brasileiras que estão no mapa do seu percurso, e de que forma os fãs podem trazer você para suas respectivas cidades?

Bebel Gilberto: Notícias quentes em breve!!! Nestes últimos dias estive em Salvador e participei do Sarau do Carlinhos Brown no dia 7 de fevereiro no museu do ritmo e depois terei uma tour na Austrália em Abril.

Revista Cajumanga: E pra finalizar: Meniiiiiina, as fotos do encarte do CD estão fazendo o maior sucesso, hein?? Qual é o segredo de tanta beleza? 

Bebel Gilberto: O segredo é viver com muito bom humor e alto astral , obrigada pelos elogios, acho essa
capa incrível tambem!!!

Revista Cajumanga: Beijos, Bebel!!

Bebel Gilberto: Beijos pra você também!!

A Revista Cajumanga gostaria de agradecer à artista Bebel Gilberto pela simpatia, respeito e atenção. Esta matéria e entrevista só foram possíveis graças a duas coisas: Ao Twitter, que encurta as distâncias no contato do artista com o seu público, e à própria Bebel Gilberto, que mostrou simplicidade ao topar responder nossas perguntas.

Siga a Bebel no Twitter: www.twitter.com/bebelgilberto
e no site oficial: www.bebelgilberto.com


Juliano Mendes da Hora

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